Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Chuva

 

Chove! Chove! E molham-se as terras secas e negras e vazias e cheias de mortos e fétidas do reino dos monstros.
E chove! E lavam-se as ruas, escadas, vielas, ossadas e ainda as pútridas bestas que demoram a derreter na sua miserável morte. E chove!
 
Chove como há muito não chovia. Chove como antes, nos tempos antes dos tempos terminarem, chuva grossa, forte, quente e fria e arrepia e aquece e dá à terra a cor de terra e ao ar o cheiro de ar e não o cheiro de morte e podridão.
E chove. E limpam-se os montes e varrem-se as casas e arruína-se o palácio e torna-se dilúvio. E chove. Apenas chove. Só chove.
 
E não há tentativas de sonetos, nem sequer de poemas, nem tentativas de construções de frases que alguma coisa signifiquem, ou quanto muito tentem significar. Simples chuva sem manias de palavras, de sintaxes, de fórmulas e pontuações e outras complicações que de nada servem e nada resolvem, apenas enchem e não dão vida, e sujam e tornam-se ocas e despojadas de sentidos e de razões. Simplesmente se perdem em secas paisagens imaginárias e tornam-se também cruéis poeiras que assentam na terra roubando-lhe a vida. No fim secam e morrem. E não esperam pela chuva que as salve. E agora chove.
 
E molham-se as duvidas, esbatendo-as, e apagam-se em simples lembranças, e recordam-se do outro mundo, dum rei que por vingança perdeu tudo, e deixou-se morrer de desgosto e arrependimento, dum corvo que por malvadez tomou a lua como sua e sem querer destruiu o mundo e matou-se ao fim, a ver o seu império entregue à morte e por fim, uns monstros que apenas agora se apercebem e se olham em espelhos e se vêem em pessoas de tempos passados, quando ainda havia tempo. O passado no seu presente, sem futuro.
música: Clint Mansell - Requiem for a Dream

publicado por JoãoSousa às 21:24
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2 comentários:
De Emanuela a 20 de Agosto de 2008 às 00:28
É por isto que continuo a vir aqui. Por esta maneira tão diferente de mim e tão idêntica a mim. É por ver tanto das minha loucuras nas tuas. Não sei quem és, como és, porque és...mas sinto-me bem aqui.Sinto-te autêntico. Sinto que nas nossas diferenças, há algo em comum( e também que estou a me repetir he,he...)
Beijos


De Emanuela a 6 de Setembro de 2008 às 00:03
Olá.Saudades de ti! Bom dim de semana!


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