Domingo, 10 de Abril de 2005

Quarta Feira

Era quarta. Meu dia de folga.
Acordei, já passava da hora e fiquei mal disposto.
Tinha de cortar a relva, mas agora estava muito sol para a cortar.
Tinha de ir comprar umas lâmpadas para os candeeiros da sala mas a àquela hora a Rita já tinha saído para levar os miúdos à escola.
Fiquei ainda mais mal disposto. Podia-me ter acordado ela. Sabia que tinha coisas a fazer.
Depois anda sempre a queixar-se da casa.
"Tu não cortas a relva enquanto está bom tempo... Tu não fazes nada por esta casa", diz ela quase todos os dias. E quando eu tenho tempo para arranjar tudo, ela não me acorda. "Mulheres... Mulheres..." suspirei eu enquanto me despia para o duche.
Estava a entrar no banho mas a água estava gelada. O esquentador estava desligado.
"Raios te partam Rita! Raios te partam!" Gritei enquanto descia as escadas a correr. Ia tropeçando nas escadas porque estavam cheios de brinquedos deles. Resmunguei porque eles nunca arrumavam nada. "Raio de miúdos. Raio de miúdos!"
Tomei o meu banho para tentar relaxar. E depois de me vestir desci para comer um bom almoço.
Em cima da banca da cozinha tinha um bilhete. "Tens restos do almoço para ti, no microondas. Aquece e come o que te apetecer. Fui levar as crianças à escola e vou às compras!".
Nem um beijo. Nem um beijo me deixou. Raios de mulher. Às vezes enerva-me tanto. Ela sabe que eu sou nervoso. Já a avisei disso. Ela sabe.
Comi os restos que havia no microondas. "Não me podia ter acordado para almoçarmos em família? Às vezes parece parva a mulher!" Resmungava, enquanto acabava a cerveja.
Dei os restos ao cão. Deixei a louça na banca e fui lá fora regar as plantas. Já não dava para cortar a relva. Por culpa dela a relva estava a ficar estragada e as ervas daninhas estavam a destruir-lhe o canteiro. Por culpa dela. "Mulher Parva!"
Peguei nalgumas cervejas e sentei-me no sofá.
A tarde já ia quase no fim, o pacote de 12 cervejas também, o filme da tarde também e principalmente a minha paciência.
"Onde se meteu o raio da mulher?" Perguntava eu alto enquanto me levantava para lhe ir telefonar, mas as pernas já não obedeciam e então deixei-me estar no sofá à espera mais um pouco.
Finalmente chegou. Os putos vinham numa correria desenfreada pela casa e acordaram-me. Já passava das sete, eu tinha adormecido, ela tinha excedido das horas nas compras.
Os miúdos subiram, eu levantei-me, ela entrou com as compras e um sorriso na cara.
"Comprei esta camisola nova para mim e uma para ti. Gostas?" perguntou-me ela enquanto me mostrava as camisolas.
"Isto são horas?" perguntei-lhe. Peguei nas camisolas e mandei-as para longe.
"Disse-te que tinha de cortar a relva e comprar lâmpadas e tu não me acordaste. Ia tomar banho mas tu desligaste o esquentador. Tive de comer os restos porque não me acordaste para almoçarmos em família. Fiquei toda a tarde à tua espera para podermos estar só os dois. Para podermos divertir-nos os dois e tu apareces-me a estas horas? E o raio dos miúdos não se calam!"
A cada palavra que dizia mais me irritava e menos sorriso via na cara dela.
"Mas que andaste tu a fazer todo o dia?". Já gritava com ela, mas tinha razão.
"Tu acalma-te!" dizia ela. "Já andaste a beber." Resmungou baixinho enquanto arrumava as latas de cerveja no lixo. Mas eu ouvi
Dei-lhe um estalo. "Que queres tu dizer com isso?" perguntei-lhe. Ela não me olhava nem me respondia. Agarrei-lhe os cabelos e repeti a pergunta. Mas ela não me respondeu.
Os miúdos já não se ouviam. Ela não me respondia. Eu estava ainda mais irritado.
Empurrei-a contra a banca, sai da cozinha e fechei a porta da cozinha com muita força.
"Mulher estúpida! Mulher estúpida!".
A casa ficou em silêncio durante muito tempo.
Os miúdos lá em cima finalmente se calaram. Da cozinha nada se ouvia. Assim estava melhor. Respirei fundo e levantei-me novamente.
Fui à cozinha e ela estava sentada na mesa, com a cara enterrada nas mãos, olhei para o chão e as compras ainda estavam por arrumar. Ali estavam as lâmpadas para os candeeiros. Ela comprou as lâmpadas.
"O Jantar não se faz?" perguntei-lhe, tentando controlar-me para não me irritar novamente por causa das compras e tentando agradecer por comprar as lâmpadas.
Saí outra vez da cozinha e sentei-me no sofá a ver futebol.
As quartas são sempre dias tão compridos...


Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 16:05
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4 comentários:
De Anónimo a 11 de Abril de 2005 às 23:09
Tens de começar a tomar Xanax às 4as feiras... :-)Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 11 de Abril de 2005 às 18:36
Um tipo de vida q n queria decididamente ter pa mim nem com a minha familia!!beijokas.andrye
(http://andrye.blogs.sapo.pt)
(mailto:andrye@sapo.pt)


De Anónimo a 11 de Abril de 2005 às 15:49
A verdade das palavras consegue ser cruel...texto fantástico. um beijo*Virgínia Pedras
(http://semipoetisa.blogs.sapo.pt)
(mailto:gina_pedras@yahoo.com)


De Anónimo a 11 de Abril de 2005 às 13:51
Uma narrativa chocante...de uma verdadeira besta!!!!inconfidente
</a>
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)


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