Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

Capitulo I – Os vinte e um Anos

Subia a rua de regresso a casa ainda com o sabor metálico de pila de velho na boca e aquela dor de cabeça terrível, prémio de consolação de mais uma garrafa de aguardente perdida. Os faróis do carro que descia a rua indicavam que o filho da puta do betinho rico que vivia no casarão do fundo da rua estava a chegar a casa, certamente depois de mais uma noite no cafezito chique, com os amigos ainda mais chiques, metidos em conversas, bebidas e petiscos muito mais chiques!

Um torpor pelos músculos das pernas de tanto tempo ajoelhado, já que o velho não se vinha e o frio entranhado nos ossos faziam-me andar aos “esses”, sempre a subir, directo a casa.

Com as calças branco-bem-sujo meias desapertadas e com os joelhos húmidos, com a camisa castanha-bem-rota, num completo desalinho, ainda com a mancha que insistia em ficar, mais um prémio dos trocos ganhos com o velho.

Chegava a casa perdido entre as chaves para abrir a porta e a vontade de mijar. Definia prioridades:

Abrir a porta, mijar, comer, deitar-me. Tudo sem fazer barulho.

Perdia-me na enumeração.

Mijava-me enquanto abria a porta, fazia barulho a subir as escadas, a bater nos móveis e a pregar com a vontade de mijar que não soube esperar.

A minha mãe, lá de cima batia com a bengala no chão e resmungava, primeiro por coisas superficiais como o tarde das horas, a vida de vadiagem, depois passava para as pregações mais profundas como o dinheiro gasto em putas e em bebida, e a falta do mesmo, ou as dores que não a deixavam viver sossegada.

E eu deixava-a lá sozinha enquanto continuava a seguir o meu percurso cozinha-cama (com a roupa deixada a meio).

Comia um pedaço de pão já ressequido de segunda, enquanto me deitava e procurava entre a badalhoquice do quarto, um cobertor para me tapar alegrando-me de ver que o veneno dos ratos já tinha feito duas vitimas. Uma bela compra sem duvida!

Antes de dormir e com a cabeça ainda a latejar, acabava o serviço que o velho não quis prestar. Filho da mãe, pagou-me o broxe muito mal pago, e ainda não me soube satisfazer, disse que não queria sujar as mãos. E depois ria-me com a ironia dos meus pensamentos “É chique o raio do velho. Meter a pila na minha boca pode meter, mas agora tocar-me na pila já é imundo. Esta gente já nem sabe agradecer. Egoístas, só pensam neles.”. E lá estava a bengala a bater novamente, agora na parede, a dizer para parar com o riso e com a chiadeira da cama.

A noite que findou os meus vinte e um anos foi passada assim. A bater uma, com os grunhos da velha do outro lado da parede, com a cabeça a estourar e uma vontade irremediável de mudar tudo o que tinha andado a fazer até ali. E vinha-me entre lágrimas bêbedas, aos murros contra a parede a pedir um pouco de paz e de boa sorte.


Gabriel Braga
música: Thom Yorke - Harrowdown hill

publicado por JoãoSousa às 15:01
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 25 seguidores

.Janeiro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.Presente

. À lembrança

. À escrita

. ...

. ...

. Às vezes

. ...

. Lhasa

. Balanço Anual

. Soneto débil

. One Night Stand

.Presente

. À lembrança

. À escrita

. ...

. ...

. Às vezes

. ...

. Lhasa

. Balanço Anual

. Soneto débil

. One Night Stand

.Imagens

SAPO Blogs