Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2004

O menino de sua mãe

Na minha opinião, simplesmente o melhor poema de Pessoa...

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa

publicado por JoãoSousa às 01:34
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1 comentário:
De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2004 às 15:37
Adoro este poema.
Boa escolha.
Visita o meu blog de poemas.
Beijinho
FelicidadesAlma de Poeta
(http://almadepoeta.blogspot.com)
(mailto:Mulher_Mariense@sapo.pt)


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