Terça-feira, 31 de Maio de 2005

José (Cartas a um filho)

Meu filho, é a tua mãe.

Como estás? A tua mãe está bem por aqui na terra. Ontem tive a lavrar o campo aqui atrás de casa e depois matamos o anho para a festa no Domingo. Tu não vais comer o anho de que tanto gostas meu filho.
O teu pai continua a levantar-se às 7 para ir pescar e continua também a não trazer nada para casa. Depois lá vai para o trabalho e chega a casa a resmungar, mas no fundo gosta muito do trabalho e gosta ainda mais de chegar a casa. Já sabes como ele é...
O teu irmão passou mais um ano na escola. Está tão grande e inteligente. Já sabe os números e as letras todas. Já escreve o nome todo dele, o meu, o do pai. Só tem ainda dificuldades em escrever o teu. Diz que é difícil. Que é difícil. Mas é muito inteligente e quer seguir o mesmo que tu.
A tua irmã lá anda toda feliz a preparar-se para o casamento. Já tratou do vestido, dos convidados e teve de arranjar outro padrinho visto que tu não podes.
Ainda nem acredito que ela vai casar. Acabou na semana passada o curso de computadores que estava a tirar e o futuro marido (um homem bom para ela, sim senhora) arranjou-lhe emprego como secretária no mesmo sitio que ele. Assim podem estar sempre juntos o que é muito bom. Agora só espero pelos netos. Ela disse que um ia ter o teu nome ou o nome do teu pai. Se for menina vai-se chamar Miriam.
Nesta altura estarias tu a passar para a universidade.
Serias já mais alto que o teu pai e continuarias a ter a minha cara. Porque toda a gente diz que tu eras igual a mim. Tal e qual.
Se estivesses cá agora, eu iria contigo todos os dias até à porta da faculdade, só para te fazer companhia. E depois, quando as aulas acabassem, virias com os teus amigos para casa (como sempre fizeste, desde da primária). Irias fazer as brincadeiras que sempre fazias no caminho para casa, como tocar à campainha da Dona Rita e fugir (eu sempre te ralhava quando fazias isso, mas no fundo ria-me. Eras tão malandro), apesar de já seres grande. E continuavas a trazer-me fruta que roubavas nos pomares ou flores que apanharias no caminho. Como sempre fazias, todos os dias, tão bondoso, tão querido.
E eu lembro-me.
Aos fins-de-semana ias com o teu pai para a pesca e arranjavas sempre maneira de ele trazer alguma coisa para casa. Depois ias com ele para o campo, ficavam a tarde toda a guardar as ovelhas. Tu lias-lhe o jornal e havia alturas em que até o ensinavas a ler. Ele bem resmungava quando não conseguia, mas tu sempre davas um jeito para o fazer querer aprender mais.
E todas as noites ajudavas o teu irmão com os deveres e brincavas com ele.
Quando era hora de dormir, deitavas-te, fingias que dormias e a meio da noite fugias pela janela do teu quarto, que é baixinha.
Ias com o teu amigo para o meio do campo, ficavam até ao nascer do dia a fumar cigarros que ele roubava ao pai, ficavam a falar e a fazer planos para o futuro fora da terra. Às vezes ele arranjava umas dessas revistas de mulheres e foi assim que descobriram o sexo, o corpo.
Todos os dias me lembro da tua cara cansada a acordares para ires às aulas. Sempre cansado por causa das noitadas no campo, mas nunca faltaste, uma única vez a uma única aula.
E na noite a seguir lá ias tu novamente para o meio do campo, sempre para o mesmo sítio. Só tu e ele, falarem das vossas aventuras mais desejadas, das maravilhas que ouvias no rádio e que querias conhecer. Fumavam tabaco que ele roubava ao pai, liam livros de poemas que traziam da escola.
E no dia a seguir lá ias tu mais uma vez. Com o teu irmão de mão dada para a escola. Encontravas-te com os teus amigos e eu via-te pela janela, sempre contente a caminhar para a escola.

Gabriel Braga

E para que fique bem e como acho importante (apesar de fazer completamente o contrario...) Hoje é dia do Não fumador. Tentemos!

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publicado por JoãoSousa às 12:24
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4 comentários:
De Anónimo a 21 de Junho de 2005 às 08:18
Resposta ao Anjo...

Por que duvidaste de minha existência, existência essa que embóra duvidosa, deixou marcado na tua súbita memória a lembrança do meu doce perfume e não o aroma da flor que anuncia a chegada da primavera, renascer de um longo inverno sombrio.
Se achas que estou aqui para te salvar, estas errado. Estou a espera de teus braços, abraços, de teu calor para que afastes de mim essa nevoa que me persegue.
Larga estes teus pensamentos, esta tua ânsia de me procurar e me encontra, apenas me encontra.
Pare de se cnsumir, assim te condenaras a eternidade só. Será isso bom? Para ti? Para mim não!
Não esperes que eu apareca, pois de mim tens a reconhecer o aroma das rosas mais de ti, nada tenho que não seja a esperança de te encontrar. Para que possamos viver em harmonia.

Te espero, até que me encontre, e espero que me encontre a tempo.anônimo
</a>
(mailto:)


De Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 16:59
Nem sabia q tinha sido o dia do n fumador!Essa carta mostra a dor e o amor q essa mãe trazia dentro do peito..beijokas grandes.andrye
(http://andrye.blogs.sapo.pt)
(mailto:andrye@sapo.pt)


De Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 16:15
não esquecer por favor a metafisica do cigarro. fumai mas fumai pouco e só em algumas ocasioes. naquelas ocasioes em que vamos para o campo com o nosso pai, ou quando estmos a escrever um poema numa paisagem qualquer num sitio bonito num país qualquer.Jack
(http://razorsharpedteethdogs.blogspot.com/)
(mailto:jackpidwell@sapo.pt)


De Anónimo a 31 de Maio de 2005 às 17:29
Este texto parece aquela música dos "Cabeças no Ar"... "Querido pai, querida mãe, então que tal?...." Como sou não-fumador, talvez dê uma "passinha" para comemorar!Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


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