Domingo, 15 de Fevereiro de 2004

...

Acordei novamente.
Estava perdido por entre os lençóis, rendido nas almofadas, vencido pelo sono. Mas tive de voltar a acordar, não sei como, não sei porquê. Sei apenas que o meu coração batia tão com tanta força, latejava-me o cérebro, fazia-me respirar mais depressa para poder acompanhá-lo naquela luta estupidamente rápida.
Então tudo parou subitamente. O tecto parou de rodar, a minha vista já não tremia, o meu coração não me doía no peito, o meu cérebro estava descansado e então sorri enquanto olhava para a janela, aberta, por onde entrava o vento frio da noite, as sombras escuras que sempre ali estavam, as estrelas e metade de uma Lua.
Sentia-me quente, tirei os lençóis. Senti o vento envolver rapidamente o meu corpo nu, fazendo-me cócegas e arrepiando-me. Estava suado. Voltei a deitar a cabeça nas almofadas. Passei um bocado pelo silêncio, fechei os olhos, dei-me de novo à escuridão. Enquanto esperava que a solidão viesse novamente adormecer-me eis que senti uma mão fria e leve tocar no meu peito suado. Abri os olhos e fiquei fixo em ti.
Estavas lá, na minha cama, a meu lado, e tocavas-me como nunca me tinhas tocado. Sorrias também de maneira diferente. Olhavas-me com uma paixão tal que me cegaste por momentos.
E então quebraste aquela imagem quando começaste a mexer a tua mão, passando-a por todo o meu corpo, ao mínimo pormenor, como se me quisesses arrefecer com a tua mão gélida.
Em câmara lenta deitaste a cabeça em mim, sentiste o meu coração e disseste-lhe para bater mais devagar, cada vez mais devagar. Depois subiste devagar a cabeça, e tocaste-me nos lábios com os teus. O teu beijo suave, simples, frio é pior que todos os pecados que possam existir. Senti de repente a tua alma tocar na minha, sentia-me tão frio, tão parado, quase morto. Tu falavas-me qualquer coisa enquanto me beijavas mais e mais, tão suavemente, como se me estivesses a dar algo que ninguém pode ou consegue dar.
E então pegaste-me na mão, agora tão fria como a tua, levantaste-me o corpo e suspiraste-me enquanto me puxavas para a janela “Agora sim, estas pronto para voar…”

Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 21:02
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1 comentário:
De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2004 às 21:40
Talvez o mais tocante post teu k já li... incrivel com m apaixono facilmente por tudo o que escreves e o sinto como se fosse comigo.sydney
</a>
(mailto:)


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