Domingo, 29 de Fevereiro de 2004

O convite I

Quando me bateste à porta, senti-me de tal maneira feliz que não podias imaginar… as pancadas secas na madeira eram como os batimentos do meu coração. Mas ao mesmo tempo destroçava-me saber que te tinha de abrir a porta. Virias tu, no teu manto negro de viagem, com a tua bengala de apoio para tão longas caminhadas. Virias fria, cansada, sem a menor expressão no rosto.
Encostei-me à porta debatendo-me entre a vontade de te abrir, deixar-te entrar, invadires-me, e entre a vontade de te deixar sozinha, ao frio da noite, continuando a bater na porta… o meu coração saltava de indecisão. Então, pelo sim pelo não deixei-te entrar, pedindo distância de ti.
Tu, sentada num sofá, e eu noutro. De olhos fixos na lareira, descalçavas as botas, com os teus pés feridos do caminho. Pediste-me água para ti, e água quente para os teus pés. Atendi o teu pedido.
Tinhas tirado a capa e podia ver os teus cabelos desgrenhados, desajeitados, mas com o brilho intenso de sempre. A tua pele estava mais queimada do sol, mas mesmo assim numa palidez incrível. Os teus dedos tremiam enquanto seguravas o copo. Perguntaste se podias fumar e eu deixei-te. Não é costume deixar alguém fumar perto de mim, mas deixei-te. Os cigarros acalmam-te.
Perguntaste na tua voz cansada, mas mesmo assim poderosa, se era hoje que iria contigo caminhar. E eis então que me deparei na duvida… Era eu, capaz de caminhar contigo? Na noite escura, ao frio, com as botas que me magoavam os pés, com o coração saltando desenfreadamente, com a tristeza à minha volta, o silencio apertando-me a garganta, as lágrimas secas que não me deixavam chorar? Como poderia eu abandonar aquele conforto? Aquele sofá, aquele crepitar da lareira? Deixar a minha casa, abandona-la? Deixa-la à mercê do pó, do esquecimento, da amargura de ter partido sem lhe dar um novo companheiro? Apenas teria o meu gato para conviver com as suas paredes, brincar com os seus moveis… não! Não estava disposto a deixa-la. Nem à casa, nem ao gato, nem à lareira que agora ardia mais intensamente, como se me chama-se a atenção de que se eu partisse também ela se apagasse para sempre, nas cinzas tristes das recordações de outrora, quando a acendia e ficava horas embrenhado nas suas chamas… quando brincava com o seu poder, quando me deitava no tapete em frente a ela, despido, enrolando-me com alguém vivo, com cor, com alma…

Gabriel Braga (numa noite irreal rodeado pela escuridão e preso pela musica)

publicado por JoãoSousa às 02:31
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1 comentário:
De Anónimo a 29 de Fevereiro de 2004 às 02:55
Está profundo... está simples... está bonito... Valeu a pena os momentos a lê-lo...
Ah! Quase me esquecia... obrigada pela visita :) Bom Dia! (:eUziNha
(http://aaaivida.blogs.sapo.pt)
(mailto:saracapote@hotmail.com)


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