Sábado, 11 de Junho de 2005

José (Cartas a um filho) III

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Meu filho,
Estarias casado agora. Com um filho com o nome do teu pai.
Aquela rapariga ainda não se perdoou pelo que te aconteceu e por ter deixado passar a oportunidade de te ter.
Mas tu nunca serias dela.
Apesar do pouco tempo que tive contigo, conhecia-te melhor que toda a gente que te passou, porque sou, fui, a tua mãe.
E eu sabia que o teu coração já estava tomado. O teu coração já tinha sido roubado pelas noites perdidas nos campos, pelas horas de discussoes sobre estrelas, sobre vidas. Pelos sonhos futuros que nunca realizaste.
Já tudo tinha sido tirado de ti.
E a rapariga, agora casada, agora com um filho (com o nome do teu pai), ainda chora todas as noites, ainda passa por aqui e olha para o jardim, na esperança de te ver a brincar com o cão, ou a plantar outra árvore, ou na esperança que lhe peças a mão.
E as tuas árvores, tão grandes agora, estão secas, quase mortas, agora que ninguém cuida delas.
O teu irmão está a acabar o curso. É um homem.
Um homem realizado, com tudo na mão, todo o mundo. Mas mesmo assim não é feliz. Diz que ainda não consegue escrever o teu nome. É difícil...
Agora quer viajar, tal como tu querias, quer conhecer os países que tu sonhavas, quer cumprimentar as gentes de que tu tanto falavas.
A tua irmã, agora uma mulher casada e com um filho que é um anjo, continua no emprego que o marido lhe arranjou. E agora tem de trabalhar o dobro para sustentar a doença do marido. Coitado. Como me dói a alma ao ver o sofrimento daquele homem tão bom. Foi o mal que lhe roubou as forças. O mesmo mal que te levou de mim.
O teu pai anda de bengala agora, porque lhe deu a fraqueza nas pernas. A mesma que deu ao teu avô. E fala pouco, só para resmungar com o patrão que o quer despedir, porque os seus olhos já não prestam.
E eu aqui estou, meu filho, sozinho, apenas com as memórias que tenho tuas, tão poucas, meu filho. Cada vez menos, porque a idade não perdoa o esquecimento e apaga tudo de mim.
Estou com saudades filho, e nunca mais fico velha para te começar a sentir mais perto de mim, como te sentia, quando estava à lareira a tricotar camisolas para o teu irmão e tu vinhas por trás, com o teu jeito calmo e manso, e eu já sentia um arrepio (sinal que lá vinhas), pousavas as mãos nos meus ombros e davas-me um beijo na cabeça.
Agora dou-te eu um beijo, meu filho.
Não um beijo de até já, mas sim um de até logo, até qualquer dia, até quando for velha e te sentir a vir por trás, de mansinho, dar-me mais um beijo.


Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 02:12
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1 comentário:
De Anónimo a 11 de Junho de 2005 às 12:02
Encontra-se em fase de organização O ENCONTRO DA BLOGOSFERA - "Jantar da Amizade Sem Rosto" - LISBOA 2005.O Jantar terá lugar no Restaurante Chimarrão do Parque das Nações.Solicitamos a vossa presença.Visitem e inscrevam-se! Beijo grande**

andrye
(http://encontro2005.blogs.sapo.pt)
(mailto:andrye@sapo.pt)


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