Segunda-feira, 13 de Junho de 2005

José (Cartas a um filho) IIII

Meu filho,
Estarias tu velho e andarias curvado e de bengala, tal como o teu pai, porque és tão alto como ele e tens a mesma fraqueza nas pernas, aquela dor que prende os movimentos.
O teu pai mal fala, agora. Deram-lhe as saudades.
Saudades tuas, do tempo em que iam pescar e traziam peixe, mas o lago secou.
Saudades do tempo que resmungava com o trabalho, mas não o deixam trabalhar mais. “Os teus olhos já não prestam!” foi o que lhe disseram como razão.
Saudades de quando resmungava com a comida, agora já não tem fome.
Saudades de quando te ralhava por seres assim, tão perfeito. Agora nem resmunga com o teu irmão porque já não vale a pena.
Saudades minhas porque estou velha.
Saudades...
O teu irmão viajou, conheceu todos os mundos que tu querias conhecer, cumprimentou todas as gentes que querias cumprimentar e levou o teu nome a todos os lados onde parou. Agora casou-se, teve um filho, separou-se, casou-se outra vez, teve uma filha, separou-se.
Digo-lhe que é igual a ti, seguiu os teus passos, mas conseguiu desviar-se nas curvas. Ele diz que ainda não sabe escrever o teu nome. “É difícil!”, diz ele, “É difícil!”.
A tua irmã é avó de dois meninos. Mulher triste, viúva e também já não tem olhos que vejam os computadores. Vive da pensão do falecido marido. Deus o tenha, bom homem!
Deu o teu nome ao filho e o filho deu o teu nome ao filho dele. Para não esquecer, diz ela.
Mas não se esquece. É impossível esquecer-te a ti e ao teu nome.
Meu filho, chego ao fim da minha vida. Tantas cartas te escrevi com a esperança estúpida da tua resposta. Mas agora, no fim, anseio por chegar a ti, porque sei que me vais responder a tudo. Porque sei que vou ler todas as tuas cartas, todas as tuas respostas e novidades.
Agora sei.
Meu filho, já nem és meu agora, passado tanto tempo de separação e esquecimento, porque o tempo levou tudo que tinha de ti. O tempo não perdoa.
Mas, meu filho, já te vou ter nos braços novamente. Já vou sentir as tuas mãos, com o teu jeito suave, a tocarem-me nos ombros para me dares mais um beijo.
Meu filho. José.


Gabriel Braga


"Um dia que queira escrever as minhas memórias, já me faltará a mim a memória para as escrever"

Alvaro Cunhal.jpg

Álvaro Cunhal


Adeus

Andrade.jpg

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
1923 - 2005

publicado por JoãoSousa às 20:27
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3 comentários:
De Anónimo a 28 de Junho de 2005 às 01:41
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De Anónimo a 14 de Junho de 2005 às 12:22
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De Anónimo a 13 de Junho de 2005 às 21:43
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