Domingo, 14 de Março de 2004

Abandono

dark street.jpg

Sinto-me sozinho, abandonado, tal cachorro que fica vagueando as ruas, amargurado, faminto, com a pele colada aos ossos, procurando um local para dormir, comer... na realidade procurava um novo dono.
Aquele que me abandonou, faz já algum tempo, deixava-me dormir no seu quarto, aquecer-lhe os pés. Dava-me comida e bebida. Tratava-me como achava que merecia. Mas as coisas começam sempre a perder o interesse. Depois de prazer passa a rotina e de rotina a obrigação e então perde-se o gosto de fazer aquilo que antes se fazia com um sorriso nos lábios, com dedicação.
Então num dia tomou a decisão de me abrir a porta, para ver se eu era atraído pelo imenso mundo que me rodeava e o qual eu desconhecia por completo.
No primeiro dia fiquei a ver a porta de longe, sentado nas escadas, mirando o sol que brilhava por ela, o cheiro das coisas boas, daquelas especiarias, o som dos carros, das árvores, de tudo. E então ganhei coragem.
No segundo dia cheguei à porta, sentei-me na sua ombreira e ficava deliciado com tanta cor, tanto movimento, com tanta vida à minha volta. E fui convencido finalmente que havia de explorar aquele novo mundo que se abria perante mim, através daquela porta. O meu dono, nesse dia veio sentar-se comigo, afagou-me e voltou para os seus afazeres tentando esquecer o crime que estava prestes a cometer. e eu continuava fascinado, sendo manipulado por aquela imagem, pela minha mente, pelo meu dono.
No terceiro dia, acordei bem disposto e ao descer as escadas lá estava a mesma porta aberta para o mesmo mundo que tinha de conhecer. Então atrevi-me a passar a porta. Sabia que corria riscos. Podia ficar completamente apaixonado pelo mundo que não conhecia, e assim nunca mais aparecer na casa que me criou. Mas arrisquei. Sai.
Uma vez cá fora pude sentir o ar, um ar fresco que me renovava, uma relva que me acariciava os pés e me fazia cócegas. Era uma sensação tão boa, tão engraçada. Pude sentir-me rodeado completamente de vida, movimento e olhei para trás. A porta tinha-se fechado num ápice e assustei-me… Ainda vi a cortina da janela mexer-se e sabia que o meu dono me estava a ver. Fiquei sentado na relva todo aquele dia esperando que voltasse a abrir a porta. Já não tinha piada aquela vida toda, aquele ar que agora me gelava, a relva que me feria os pés. Ainda chamei algumas vezes, já sem esperança, pelo meu dono. Mas voltava a ver apenas a cortina a mexer e a porta permanecia fechada.
Era de noite e estava tão assustado que tinha de reagir. Então levantei-me e decidi-me pelo mundo. Alguém me iria adoptar outra vez, conquistar o meu coração, dar-me de comer e beber, deixar-me dormir a seus pés…
Eu corri tudo. Todos os bairros, ruas, cidades… mas ninguém estava disposto a ter pena de mim. E cada vez estava mais faminto, mais sem vida, sem esperança… E continuo, perdido, pelas ruas, amargurado, sozinho, sobrevivendo com o que o mundo me dá (que é pouco). Esse mesmo mundo que me aliciou a ir ter com ele, agora apenas me dava o essencial para eu sobreviver...
Agora perdi completamente a esperança. Já não olho para ninguém na ânsia de voltar a ser adoptado, já não me importo com o que pensam de mim e com o aspecto que a cada dia piora… deixo-me vaguear pela estrada, encontrando outros como eu, metendo-me em brigas que não são minhas, defendendo-me a mim próprio. Deixando-me levar por coisas que me darão algum prazer e me fazem esquecer por momentos a porta que se fechou mal eu pus um pé no mundo.
E vivo assim… sobrevivo. Um dia rei, agora um nada.
Um dia alguém, agora simplesmente mais um abandono.

Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 03:27
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2 comentários:
De Anónimo a 15 de Março de 2004 às 19:29
Encandescente, obrigado pelo teu comentario e sim, podes adiciona-lo aos teus favoritos! também já conheço o teu blog e gostei! :)
Obrigado,
Gabriel BragamadOsiris
(http://www.unknownpoets.blogs.sapo.pt)
(mailto:madness@portugalmail.com)


De Anónimo a 15 de Março de 2004 às 08:38
Descobri agora o teu blog lindo este 1º texto. queria adicionar o teu blog aos meus favoritos, posso? e qdo digo adicionar não é esperando retribuições que fique bem claro, é que qdo gosto gosto!encandescente
(http://eroticidades.blogs.sapo.pt/)
(mailto:encandescente@sapo.pt)


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