Quinta-feira, 1 de Abril de 2004

Naquela Tarde

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Dificilmente te via naquela réstia de luz que ainda teimava em passar pelas árvores, altas árvores, velhas. Tinha de me esforçar para poder ver o teu corpo e já nem sentia os teus olhos. Estava atento a qualquer pormenor. Os ruídos que vinham da penumbra que nos circundava, as sombras que existiam e cada vez se aproximavam mais… Estava apreensivo e ao mesmo tempo com uma adrenalina intensa devido ao jogo que fazíamos. Tu escondias-te, eu procurava-te e depois trocávamos os papéis. Mas não sei porquê, quando o sol atingiu aquela folha, naquele instante, em que os seus raios chegavam devagar ao solo e nada aqueciam, naquele momento senti medo. Estremeci, e tentei afastar de mim aquele pressentimento que me atacava, me gelava, me prendia a garganta, afinal de contas tu estavas lá. Não te podia ver totalmente mas a tua presença, o teu perfume, o som dos teus passos asseguravam-me de ti. Alem disso, aquele tremor que me deu só poderia ser do vento. E tu andavas, sempre debaixo dos meus olhos, ora atrás duma árvore, ora atrás dum arbusto, o teu riso acompanhava-te sempre ate parares naquele cedro pequenino e ficares lá escondida…
Mesmo assim resolvi parar. Sentei-me na rocha que estava por trás de mim e chamei-te. Primeiro baixinho para não notares o meu nervosismo, e não ouvi resposta. Pensei que à distância em que te encontravas já não me ouvias, então chamei por ti mais alto, não era um grito mas parecido. E o silêncio apoderou-se das redondezas. Já não ouvia passos, nem o teu riso e o teu perfume dissipava-se rapidamente com o vento. Então voltei a tremer. A única esperança que tinha era realmente a dos meus olhos, que cada vez viam menos, mas que e asseguravam o lugar onde te esconderas. “Está na hora!” disse eu para que tu voltasses e te deixasses daquela brincadeira estúpida. Porque é que me deixei levar naquele jogo? Via cada vez menos, estava cada vez mais frio e então, antes que mergulhasse na escuridão de vez, levantei-me e fui avançando para o sítio onde estavas escondida. Cheguei lá mas já lá não estavas.
Num acto de desespero, de completo desnorteamento, olhei em volta e via enumeras sombras, imensos barulhos todos eles suspeitos… Senti um aperto no peito, uma lágrima nos olhos, um calafrio na espinha.
“Estou perdido… Ela partiu outra vez…”

Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 20:09
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1 comentário:
De Anónimo a 1 de Abril de 2004 às 23:44
um bonito poema, acompanhado por uma bela imagem, faz-me pensar em férias de páscoa lolSandra Rocha
(http://curlygirl.blogs.sapo.pt)
(mailto:flyingshark@[remove]sapo.pt)


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