Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

Saudades...

Tinha saudades de ti. Do teu corpo, da tua pele, de todos os poros do teu corpo.
Ontem, ainda ontem, no crepúsculo de mais um dia, no olhas de uma lua me tocavas de novo no ombro como me chamando.
Tinha saudades de ti. Da tua voz que me fazia arrepiar, que me embalava nos tempos em que mais precisava de ser embalado, de me tornar bebé, de voltar para o colo materno.
Tinha saudades de ti. Do teu perfume, do teu cheiro quando fazíamos amor, daquele perfume suave e doce que punhas quando passeávamos, e aquele leve tontura maravilhosa que sentia quando te embriagavas em drogas.
Tinha saudades de ti. Das tuas mãos que sempre agarraram as minhas, quando me arranhavam carinhosamente.
Tinha saudades de ti… mas já não tenho.
Perdi todo aquele sentimento que tinha por ti. Aquela coisa absurda que me punha tonto de tanto pensar. Aquilo a que chamaste Amor e eu sorri. Eu já ali sabia que não era amor, apenas um conforto para a solidão que eu vivia mas sempre tentei dar o significado que querias, alias, que me exigias.
Perdi toda a vontade do teu corpo já tão habituado ao meu, onde já não encontrava nenhuma surpresa.
Perdi a vontade de te ouvir, a tua voz que antes me embalava agora nada me faz tal é a sua vulgaridade.
Perdi a vontade de sentir o teu cheiro, cansei-me daquele sabor doce que me punha tonto. Agora deixa-me um pouco agoniado.
Perdi as saudades das tuas mãos e dos arranhões carinhosos que me fazias. Agora são feridas que não saram e que me doem.
Perdi as saudades que tinha de ti…
Perdi tudo que tinha de ti. Aliás queimei-as. As cartas que, todas as noites, me escrevias. As musicas que me cantavas, as fotos que me davas, tudo.
Perdi as tuas roupas que ainda estavam no meu quarto, perdi aquele teu colar que um dia me deste como talismã. Perdi tudo.
E não me sinto mal por isso… por te ter perdido. Por ter perdido saudades de ti, das tuas mãos, dos teus olhos, da tua boca.
Não me sinto mal por ter perdido as músicas, o perfume, aquelas noites de loucura.
Não me sinto mal por nada disso.
Apenas me sinto mal por não te ter perdido antes. Por me deixar levar nos enganos, nos teus enganos…
Sinto-me mal por ter sido cobarde a ponto de pensar que te desejava, mas nunca precisei de ti.
Sinto-me mal por tudo o que poderia ter feito mas não fiz por tua causa.
Sinto-me mal, mas não tenho saudades tuas, e deixei-me perder-te…

Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 23:35
link do post | comentar | favorito
|
3 comentários:
De Anónimo a 7 de Abril de 2004 às 08:51
Gostei especialmente deste texto, e concordo a palavra é uma artimanha para tentar entender/decompôr/enterrar a dor. mas não resulta lá muito bem pelo menos comigoencandescente
(http://eroticidades.blogs.sapo.pt/)
(mailto:encandescente@sapo.pt)


De Anónimo a 6 de Abril de 2004 às 19:50
Aprendi uma maneira de aguentar com a dor, por mais forte que seja. Dor, amor, realidade, drogas... sao tudo palavras, meras palavras. Pego nelas e digo-as imensas vezes, pego nelas e decomponho-as, uso-as das mais diversas formas, ate que elas perdem o seu significado. é uma artimanha para conseguir suportar melhor o peso da dor. apesar de me enganar a mim, assim nao sofro tanto... :)madOsiris
(http://www.unknownpoets.blogs.sapo.pt)
(mailto:madness@portugalmail.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2004 às 17:46
extraodinariamente real...quantas vezes desejei ter o poder de esquecer, de perder alguém, mas não tive as forças para isso. Fui fraca e arrastei comigo a dor de um vazio durante anos...gosto da forma como consegues ter a frieza para o fazeres quando tenho a certeza que também t doi.menina sorridente
(http://www.muiperto.blogs.sapo.pt)
(mailto:)


Comentar post

.mais sobre mim

.Janeiro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.Presente

. À lembrança

. À escrita

. ...

. ...

. Às vezes

. ...

. Lhasa

. Balanço Anual

. Soneto débil

. One Night Stand

.Em Antena

.Passado

.Em Leitura


O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder



O Amor Em Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Márquez


O romance da raposa - Aquilino Ribeiro


A Arte da Fuga - Daniel Sampaio


Laranja Mecânica - Anthony Burgess



Tudo Que Temos Cá Dentro - Daniel Sampaio

.Blogs

Naif Naif
Studio 78
Marilia's Livejournal
Antigos Caminhos
O Micróbio
Photo of the Day Ng
Cine Blog
A whisper in your hear
O Meu Entendimento
Emanuela
Dentro de Mim
Parlamento do Pica Pau
Gritos Mudos

.Videos

Luciano Pavarotti & DOlores O'riordan - Avé Maria Arcade Fire - Wake Up Sigur Rós - Hoppipolla "I recorded my Amaryllis flower with my webcam for a month, taking 1 photo every 13m 20s. It is played back here at 25 frames per second to Liz Phair's song "Flower". This is my first attempt at timelapse photography, so it's not perfect, but not bad." - by paul Newson

.Imagens

blogs SAPO