Terça-feira, 6 de Abril de 2004

Aryan

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Estendeu o dedo pela primeira vez. A medo, olhando em volta ganhou coragem para ergue-lo mais um pouco até que pudesse ser bem visível por todos.
A pouco e pouco, instalou-se um silêncio admirado na sala de aula. Todos olhavam para aquela menina tímida, que pouco falava, que sempre andava sozinha, e que nunca tivera coragem para responder ao que lhe perguntassem.
- Aryan, desejas falar?
Mais uma vez ela olhou em volta e viu dúzias de olhos fixos nela, e no seu dedo ainda estendido no ar. Ela baixou-o rapidamente e baixou também os olhos.
- Sim… – tremeu ela e já não tinha vontade de falar, alias ela nem sabia bem o que iria perguntar. Mas desde que ouviu uma discussão dos pais, acerca de sair da sua terra por causa dum tal rio chamado Narmada, ficou com medo e queria tirar aquele receio dentro de si. Continuou então a falar de olhos postos no chão, enquanto todos a ouviam atentamente – Professora, nós vamos ficar sem a nossa terra?
Levantou-se um vendaval de murmúrios por toda a sala, e Aryan novamente olhou à sua volta. Nenhum dos meninos tinha ouvido falar do rio Narmada e das terras que ele iria cobrir.
A professora deixou todos acalmarem-se. Até ela tinha ficado admirada com aquela pergunta, vinda de uma menina pequenina, magra, de olhos e cabelos escuros.
A pouco e pouco os murmúrios foram parando e um a um, todos os meninos, dos seus sítios, começaram a fitar a professora com os seus olhos duvidosos. Ela não sabia bem como iria responder aos seus alunos sobre assunto tão delicado. E sabia que os meninos iriam ficar assustados, iriam perguntar novamente aos pais sobre o Narmada, os pais chateados iriam pedir satisfações à Professora. Mas ela também não poderia mentir.
- Aryan… Porque perguntas isso? – Decidiu-se por tentar dar a volta à questão sem responder concretamente à pergunta.
Aryan tinha ganho nova coragem, vendo que os seus colegas também queriam resposta.
- Ouvi uma conversa dos meus pais sobre o rio Narmada. O meu pai que trabalha numas obras a que ele chama “Sarovar maldito” disse que qualquer dia, o rio vai submergir toda a nossa aldeia. O que quer dizer submergir professora?
Enquanto isso, a Professora, uma moça nova e carinhosa, também ela de longos cabelos negros e olhos brilhantes, debatia-se. Deveria dizer a verdade e lançar o pânico aos seus meninos, ou então não responder às perguntas e deixar que eles fossem duvidosos para casa. Seria mais correcto responder. Alem disso, os meninos já estavam assustados, e um novo correr de murmúrios invadia a sala.
- Meninos silêncio! Aryan, o teu pai, como os pais de outros meninos daqui, trabalha nas obras de um dique chamado Sardar Sarovar. Um dique é um muro enorme de betão e tijolo que serve para guardar a água dos rios, tornando o rio num grande lago. Como a água deixa de correr, ela vai-se juntando, juntando, e vai cobrindo mais terra, mais terra.
Esse tipo de diques são precisos para que as pessoas tenham melhores condições de vida, vai servir para dar luz a muitas pessoas…
Vendo que a sua pergunta não estava a ser respondida, Aryan voltou a perguntar – Vamos ficar sem as nossas casas?
- Bem… Como eu estava a dizer, para que haja boas condições para as pessoas, para que haja comida e luz, tem de se fazer sacrifícios. E chegou a nossa altura de fazermos um sacrifício. Vamos ter de sair da nossa terra, porque, quando o dique estiver pronto, a água vai chegar até aqui e nós não poderemos viver aqui.
- Não chega já o sacrifício que a minha mãe faz, trabalhando como uma escrava para os senhores ricos, a fim de liquidar dividas que temos para com eles? – Perguntou um menino lá trás da sala. Ele já era mais velho que todos os outros e sabia muitas mais coisas sobre as vidas que viviam. Também ele já trabalhara para os senhores ricos, para ajudar a família a pagar a divida que arranjaram quando precisaram de dinheiro para o funeral do seu irmão mais velho que tinha morrido um dia, quando trabalhava nas obras de um prédio qualquer. – Não chega o facto de termos casas feitas de colmo, de não termos roupas novas, de termos de trabalhar ao fim da escola, de não termos sequer carteiras na nossa sala… ainda vamos ficar sem a nossa terra?
A Professora estava sentida ao ver que os seus meninos estavam assustados, que se apercebiam dos problemas em que viviam, que sabiam de coisas, que não falavam com os pais porque eram ainda crianças. As lágrimas chegavam-lhe aos olhos. Aquela terra onde sempre viveu, apesar de ter viajado para longe para aprender a ser uma pessoa, iria ser transformada em pântanos inabitáveis. O Narmada, o rio onde muitas vezes tinha tomado banho, onde muitas vezes levava o gado a beber, iria tornar-se agora numa maldição.
Os murmúrios na aula aumentavam a sua velocidade e o seu tom, até que outro braço se levantou:
- Professora, o que é a luz?

Gabriel Braga sobre a realidade na Índia

publicado por JoãoSousa às 13:01
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4 comentários:
De Anónimo a 6 de Abril de 2004 às 22:42
Tambem te amo maninha querida! e espero que o nosso amor dure muito. obrigado pelo comentario, foi mt importante para mim, serio. :)madOsiris
(http://www.unknownpoets.blogs.sapo.pt)
(mailto:madness@portugalmail.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2004 às 22:33
gostei mt do texto e a foto tb..o blog ta td mt lindo..amu t mt maninho @@@@@@@@blackangel
</a>
(mailto:)


De Anónimo a 6 de Abril de 2004 às 19:52
E o que me dói mais pensar, é que esses senhores ricos que mandam construir diques sem se preocupar com o que vao prejudicar, e emprestam dinheiro a familias, enganando-os e tornando-os escravos... esses senhores ainda vem todos sorridentes a publico, dizer que estao preocupados com a populaçao mundial.
Realmente é triste.madOsiris
(http://www.unknownpoets.blogs.sapo.pt)
(mailto:madness@portugalmail.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2004 às 17:50
uma realidade tocante...menina sorridente
(http://www.muiperto.blogs.sapo.pt)
(mailto:)


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