Quarta-feira, 14 de Abril de 2004

Não toquem no meu clitóris.

O que é afinal o clitóris?
Não se trata apenas de um pedaço uniforme e disforme que cada mulher possui, encravado num local obscuro, fruto de tantos mitos e proibições? Ou é apenas um erro de localização da natureza, que o homem tentou, séculos antes, corrigir através da cirurgia?
Sim, uma cirurgia que tentava aproximar esse misterioso órgão de um local mais visível e tocável.
Fruto de tanta perseguição, poderia surgir como o mais alto símbolo feminino, o «Amor Veneris» que Mateus Colombo, do esplendor da Itália Renascentista, descobriu e baptizou, exultando-o como o «órgão que a mulher possui em vez da alma».
Mas, se antes a mulher não tinha alma, agora não tem corpo.
O seu corpo continua a ser proibido, inclusive a elas próprias.
Nenhuma mulher é dona do seu corpo, espantem-se.
Se em culturas milenares lhes são arrancadas partes da sua feminilidade, à força de uma navalha crua que lhes delicera a genitália, em outras são elas próprias os seus carrascos.
Ainda em criança vêem-se privadas do seu corpo-. Antes de chegarem à menarca são os seus pais que fazem a ablação dos seus órgão. E se em algumas culturas apenas o clitóris é retirado, em outras todos os genitais são extraídos, à força de uma navalha imunda que tantos crimes presencia em silencio, cozendo então a zona infectada, deixando um tímido orifício do tamanho de uma cabeça de fósforo para a expulsão do sangue menstrual.
Tal sutura é apenas cortada na noite de núpcias, se o marido decidir ser gentil.
Pode ser entrar abruptamente nela, sem descoser primeiro.
Onde se passa tal abominação? África, Ásia, china?
Não, em todo o lado. Em todo e qualquer lugar do mundo uma mulher se mutila, se destroi. Por ela ou pelos outros.
E cala, resignada.
É a tradição e o costume que prevalecem à força da subjugação.
Em qualquer país ocidentalizado, centenas de belas e perfeitas mulheres invadem a televisão, revistas e outdoors.
Têm uma pela perfeita, um cabelo perfeito e um corpo perfeito.
E as outras, as que passam debaixo delas, se mortificam porque não são assim. Procuram então dietas, colorações, tratamentos. Retiram aqui e põem ali, são sujeitas a operações, transformações.
Porque exigem estarem bonitas, bem consigo próprias.
Engodo!
Uma mulher não está bonita para estar bem consigo própria.
Por mais que afirmemos isso (porque fica sempre bem afirmar tal coisa) sabemos que não é verdade.
Produzimo-nos para nos sentirmos bonitas, sedutoras, aos olhos dos outros. Porque se os outros nos dizem que estamos bonitas vamos ao espelho e olhamos outra vez.
Porque todos nos dias nos torturamos.
Porque queremos ser belas, queremos ser mulheres.
E todas as mulheres são belas.
As que têm a pele queimada pelo sol do campo, as que têm calos nas mãos, as que têm as costas vergadas pelo trabalho… essas…. São as mais belas de todas.

Por Waris al’ Saadawi

Acho que valia a pena postar este texto.

publicado por JoãoSousa às 22:33
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1 comentário:
De Anónimo a 14 de Abril de 2004 às 22:53
uma lágrima apenas...de raiva..e um grito de cansaço..um peso no coração e uma vontade de destruir o mundomia
(http://especiarias.blogs.sapo.pt)
(mailto:)


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