Segunda-feira, 19 de Abril de 2004

O homem que tinha um dia... V

O homem que tinha um dia deixou-se dormir até tarde naquela cama que seria sua por pouco tempo. Depois de acordar ainda ficou imenso tempo a olhar para o tecto. Ia ter saudades dos tempos passados naquela cama... Ficou mais uma vez a recordar os tempos áureos que tinha vivido. Pensou também se estaria a fazer o correcto, já que não era obrigado a nada, era um acto voluntário.
Levantou-se e vestiu a roupa que tinha comprado há dois dias atrás quando visitara tudo, uma roupa nova, bonita, preta.
Foi almoçar fora sozinho, cometeu uma loucura e comeu no melhor restaurante da cidade, a melhor refeição do restaurante, com o melhor vinho possível. Fumou um cigarro que lhe soube bem e foi passear.
Durante toda a tarde percorreu as ruas da cidade, como fizera dois dias antes. Mas agora em cada esquina que passava deixava um pouco de si, um pouco de saudade e tristeza.
Deu todo o dinheiro que tinha consigo a um miúdo que passava os dias à porta da igreja a pedir e entrou na igreja pela primeira e ultima vez. Sentou-se num banco apreciando tudo. Achava piada à religião cristã, apesar de ser contra o cristianismo dos novos tempos. Ficou lá durante muito tempo, olhando para tudo, e falando sozinho com o suposto Deus que o ouvia. Ainda pensou em confessar-se mas achava que não. A confissão era um desabafo, e depois de deitar tudo para fora ficava sem nada dentro dele e ele não queria isso. Queria guardar tudo dentro dele, todos os bons e maus momentos, todos os seus pecados e as suas boas acções.
Já escurecia quando saiu. Ainda tinha algum tempo. A hora que tinha marcado para si ainda demorava, então resolveu ver um filme no cinema. Escolheu um filme ao acaso e sentou-se, quase sozinho na sala, comendo daquelas pipocas salgadas pela última vez. Prestou atenção a todo o filme e achou-o lindo, talvez porque fosse o ultimo que veria ali naquele cinema. Ficou depois do filme, sentado na cadeira, enquanto as outras pessoas se iam embora para a sua vida normal. A hora dele chegava agora a passos largos...
Voltou a casa, vagueando sozinho pelas ruas. Subiu mais um andar e bateu à porta da senhora que tantas vezes o tinha ajudado e dado-lhe comida e despediu-se dela com muita saudade. Adorava aquela velhota. Voltou para o seu apartamento. Parecia que a escuridão e o vazio já se tinham apoderado do apartamento. Mandou vir comida de fora. Comida chinesa. E deliciou-se enquanto via mais uma vez os álbuns de fotos. Tantas fotografias que tinha tirado enquanto ali estava. Tantos momentos. Sentia um misto paradoxal no seu coração. Por um lado sentia-o cheio de recordações e de momentos passados, por outro o vazio da saudade e um futuro cada vez mais curto. E voltava a grande questão do passado que sempre quisera voltar a viver e do futuro que nunca desejara mas que vinha sempre.
Estava na hora...
Desceu para a rua, andou até ao sítio marcado e sentou-se num banco, esperando o momento certo.
Um comboio começava a aparecer na penumbra com o seu barulho característico e as suas luzes cada vez mais fortes...
Estava quase na hora.
O comboio quase que parava e ele levantou-se rapidamente dando um largo suspiro...
Entrou. E pouco tempo depois partiu para sempre...

Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 19:36
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1 comentário:
De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 09:43
Escolhi este texto para comentar porque está magnifico!!encandescente@sapo.pt
(http://eroticidades.blogs.sapo.pt/)
(mailto:encandescente@sapo.pt)


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