Sexta-feira, 24 de Setembro de 2004

Os Pais fugiram de casa! III

O meu irmão, depois de muito tempo, deixou de sorrir (agora sim, parecia-me um sorriso nervoso, um daqueles sorrisos para não chorar, que se usa como mascara) e foi para o quarto deixando-me sozinho. Eu ainda fiquei no quarto dos meus pais por muito tempo a olhar para o espelho e a ver o meu reflexo assustado e o resto do quarto vazio. Nunca me tinha passado pela cabeça ficar sem pais… Pior, eles fugirem dos próprios filhos. Senti uma onda de raiva invadir-me mas dissipou-se quando ouvi um carro parar e corri à janela. Era o carro dos vizinhos. Tinham chegado agora de uma festa. Vinham contentes. A mãe saia do carro com o bebe Raul ao colo e o pai falava com a Rita enquanto se encaminhavam para casa. Apeteceu-me gritar por ela, pois sempre fora a minha consciência, a minha companheira. Quando os vi entrar em casa olhei em volta, para a rua deserta e escura, na esperança de ver os meus pais e apercebi-me que o meu irmão também tinha ido à janela para ver quem seria. Voltei a sentar-me na cama dos meus pais.
Finalmente, passado um pouco mais de tempo, sai do quarto dos meus pais e no escuro fui até ao quarto onde dormia a Bia, a minha irmã mais nova. Quando passei pelo meu quarto ouvi musica e percebi que o meu irmão estava ainda acordado. Tive pena dele, porque ele ainda não se tinha realmente mentalizado do caos que se instalara à nossa volta.
A minha irmã dormia, longe de todo aquele pesadelo, dormia agarrada à almofada. Deitei-me à beira dela e ouvi-a respirar durante muito tempo até que finalmente adormeci envolto em dúvidas. E lembro-me que a ultima coisa que pensei ao adormecer foi “Pelo menos agora vamo-nos dar bem! O Gui até me abraçou.” E sorri.
Acordei às nove da manhã. Mal acordei, pensei que tudo tinha sido um sonho, mas o facto de estar na cama da minha irmã fez-me perceber que era verdade. Depois quando me levantei apercebi-me que a minha irmã não estava a dormir e um novo pensamento veio-me à cabeça juntamente com um aperto no peito, também ela tinha desaparecido. Corri ao meu quarto onde o Gui tinha ficado a dormir e parou-me a respiração quando em cima da cama apenas estavam uns cds espalhados. O pânico instalou-se em mim e a correr desci as escadas enquanto gritava por eles. Corri para a cozinha, para a sala de jantar, passei pela sala de estar. Estava desesperado!


Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 02:08
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