Sábado, 13 de Dezembro de 2008

O Divórcio

 

Maria chegou primeiro e sentou-se. Pediu um café, que tinha sono, e um qualquer chocolate, que precisava de açúcar.
Fernando chegou logo depois, ainda o empregado não tinha atendido o pedido de Maria, e aproveitou para pedir rapidamente um café, que também tinha sono, e um copo de água, que já era seu costume.
Olharam-se os dois e sorriram-se. Maria comentou que era cedo e estava ainda de ressaca. E riu-se. Fernando riu-se também, também se sentia pouco acordado, e perguntou-lhe o que tinha feito na noite anterior.
E começou assim a conversa. As noitadas, as bebidas, as drogas e os amigos, os comentários e as críticas e os fumos e os sexos e tudo que tinham feito até aí.
Vieram os cafés e respectivos acompanhantes, e vieram também duas torradas, que já era mais que hora do pequeno almoço, e depois mais dois sumos naturais, que a torrada era seca e dava sede, e passaram-se horas e os dois ainda se riam, nas discussões que sempre tinham e que nunca davam o braço a torcer, na cumplicidade de todos os anos que já pesavam em cima da sua relação, dos amores, desamores, traições, alegrias e desilusões.
Riram-se até do filho que Maria não queria, dos miúdos que Fernando queria, e do facto de nem isso terem conseguido.
E riram-se novamente dos ataques sexuais de Fernando, ou da descompressão orgásmica que Maria adorava ter. E do quanto Maria gostava de estar agarrada ao sexo de Fernando. E do quanto Fernando adorava possuir Maria por trás. E tocaram-se ao de leve, imaginando-se em actos antigos, suados e quentes.
E sussurraram relembrando experiências escaldantes com terceiros incógnitos, quando Fernando se deixou levar por outro homem oferecendo a Maria um espectáculo voyeur que ela tanto ansiava, ou quando Maria partiu à descoberta de clítoris desconhecidos em mulheres que caíam nos braços de Fernando.
E riram-se. E estavam contentes. E felizes. E gostavam muito um do outro.
E trocaram os papéis, e cada um assinou o seu, e fingiram que leram enquanto recordavam ainda coisas mínimas como os casacos que ele teimava em pousar no móvel da entrada e a arrumação minuciosa que Maria obcecava ter nas suas gavetas de roupa interior.
Maria guardou o seu papel na bolsa e suspirou. Fernando dobrou o papel e guardou-o no bolso. Olharam-se. Estava feito. E calaram-se durante um tempo.
Nenhum dos dois hesitou, nem temeu, nem sentiu o aperto de quem faz um erro.
Ele tirou a aliança e deu-lha. Ela tirou a aliança e deu-lhe.
E riram-se muito!
Fernando pagou o consumido. Era a sua última vez a pagar. Maria vestiu o casaco e pegou na bolsa.
Saíram do café. Deram a mão e olharam-se o mais fundo que alguém pode ou consegue olhar. Beijaram-se num adeus tão grande e imenso e definitivo e viraram costas sem olhar para trás.
 

 

 

música: Neutral Milk Hotel - Ghost

publicado por JoãoSousa às 17:14
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3 comentários:
De Emanuela a 14 de Dezembro de 2008 às 14:45
O que dizer-te de uma história tão real? Sempre me impressionas pela escrita, pelas emoções que consegues imprimir às tuas palavras. Pareces alguem com uma vasta experiencia de sentimentos...
Quanto à saudade do que escrevo, meu amigo, digo-te que ultimamente as palavras se foram de mim. Estou tão vazia que até para responder aos comentários me custo. Mas há de passar!
Um beijinho


De Carlos Tavares a 19 de Dezembro de 2008 às 14:21
Olhar para trás já o tinham feito os dois durante o pequeno almoço...


De Carlos Tavares a 23 de Dezembro de 2008 às 22:48
Um Santo Natal


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