Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

...

 

Maria tinha conseguido!
Chegara o dia do seu casamento, e sentia no seu acordar, a mudança brusca de uma menina pura e inocente, para uma mulher capaz e decidida. Nunca se apercebera até então, que o tempo tinha tomado conta de si.
Nem se deu ao trabalho de se aperceber das mulheres que andavam loucas à sua volta, e se debatiam em fúria excitada pelos vestidos, pelos cabelos e pelos pós que espalhavam cruelmente sobre elas. Era o seu dia.
 
E sem tirar a cabeça das suas nuvens, olhou-se ao espelho e estava pronta. Noiva! Mascarada, sorriu.
A mãe chorou, a tia chorou, as irmãs, as primas e as melhores amigas choraram. Ela riu e disse que parecia inchada.
 
Chegada a boda, ainda sem tirar o sorriso do rosto, passeou durante todo o corredor, sem ligar, nem sequer à marcha nupcial. E o seu par que apertava as mãos, esperava-a suando, a arfar, num completo ataque de nervos, que apenas o toque suave das suas mãos acalmou. Ela dando-lhe a sua força de mulher, ele aguentando com a coragem de um homem. E mantiveram-se assim até ao Sim final.
 
Estava no quarto novamente trancada. Tirava o vestido e o sorriso parecia aparvalhado agora, colado à cara, sem expressão, nem sequer vontade de sorrir. Olhou-se ao espelho, nua, mulher, com a mão fina, macia, suave, cravejada com tal argola de ouro que desconhecia. E caiu em si, e caiu da cadeira, e durante um segundo morreu.
 
Como podia estar ela casada? Ser ela mulher? Se nem sequer tinha ainda desabrochado!
 
E ainda tentava reanimar a respiração, quando uma mão a puxou e a deitou na cama, lhe perguntou se estava bem e a tocou gentilmente na cara. E esperou que abrisse os olhos, para sorrir de alívio, para se acalmar, para perguntar o que se passara.
 
Maria acordava ainda em pânico, nua, viva novamente. E os seus olhos habituavam-se ao homem à sua frente, e a sua boca chamou-o, sem o reconhecer, e o seu corpo provocou-o e as suas mãos agarraram-no, e as suas pernas abriram. E…
 
Maria tornara-se mulher numa simples e rápida traição, em cinco minutos de um compromisso eterno. Maria suspirara de alívio, ao toque do último estremecer do orgasmo, olhando o pouco sangue que perdera, restos da sua meninice, que acabara de abandonar, riu-se.
Beijou o homem que a tornou mulher e esqueceu-o nesse instante. Lavou-se, vestiu-se e desceu as escadas. Juntou-se à festa e ao seu marido, olhou-se num flash duma qualquer câmara e viu-se de anel de ouro, no dedo de quem se comprometeu. E era mulher, e era casada.
 
 
música: The killers - Human

publicado por JoãoSousa às 21:53
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1 comentário:
De Emanuela a 23 de Novembro de 2008 às 02:47
Puxa, esta Maria eu não consegui entender, de forma alguma... É uma mulher muito estranha! É claro que não a vais explicar-me...


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