Domingo, 16 de Novembro de 2008

...

 

Ah! Nem ele tinha ainda idade para perceber a situação em que se metera. Mas era tarde demais. O seu corpo já estava aprisionado por entre as pernas de uma qualquer anaconda, que sem receios nem permissão, o estrangulava violentamente, enquanto sibilava suavemente ao seu ouvido, mentiras e ilusões, como se o tentasse distrair da dor dilacerante que sentia nesse momento. Como uma sereia que canta cada vez melhor, quão mais afogado já está o marinheiro.

 

Mas a culpa era somente dele. O animal à sua frente, uma besta pura e nua, tinha sido sua companhia em toda a sua curta vida, e estaria domesticado, não fosse a força bruta e animalesca do sexo, arrancar-lhe os ensinamentos básicos da memória, e torna-lo apenas num bicho sadio que necessita apenas de procriar. Culpa sua que o excitara!

 

E era vê-lo depois, ainda franzino, mas cheio de um tesão que nunca sentira outrora, baixar as calças e deixar-se ser levado por aquele corpo quente e suado de víbora que escorria por cima de si. Não sentia mais medo nem dúvidas. Apercebera-se também, assim tão repentinamente, que não era tão diferente assim do animal que o olhava, e o segurava com força para que não fugisse de si.

 

Não sentia nada a não ser a vontade dilacerante de o sentir dentro de si, suavemente, depois com força, e deixa-lo escorrer o seu veneno por todo o corpo, entrando-lhe no sangue, tornando-o mais vivo. E abria as pernas num trejeito de quem pede.

Doeu! Doeu imenso. Certamente que as lágrimas que ele teimou em guardar no canto dos seus olhos, foram as lágrimas que mais mereciam escorrer pela sua cara. Mas as únicas gotas que se escoavam de si, eram do suor de alguém que se sentia ferido, aberto, exposto.

Mas passou-lhe rapidamente tudo o que sentia, quando deu por si a ser rodado, a ser atirado brusca mas apaixonadamente, de costas para o chão e de se sentir ser sugado.

 

Ah! Como se veio o sorriso na cara dele, ao sentir, pela primeira vez, o doce sabor de ser aspirado. Com ele não foram só a excitação e as luxuriantes vontades, mas foram também tantas outras dores, incertezas. De repente, sem repentes, com o crescer involuntário de si, para dentro do outro, com o desaparecer dos seus exuberantes desejos por entre líquidos viscosos e quentes, adivinhou-se quem era, aceitou-se como tal e fugiu para casa como um puto normal fugia, pensando que alguém podia descobri-lo, como ele se descobrira ainda há pouco.

 

Foi rápido, confuso, sujo e agora que ainda tinha o sabor metálico e agridoce daquelas novas iguarias que provara, estava desnorteado e o pior, nem se podia sentar para recuperar o fôlego.

 

música: Sigur Rós - Olsen Olsen

publicado por JoãoSousa às 19:20
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3 comentários:
De Ana a 16 de Novembro de 2008 às 20:04
hummm excelente texto!

adorei o toque... ;)


De Emanuela a 16 de Novembro de 2008 às 21:17
Oi amigo. Obrigada! Também tenho saudades de ti, saudades dos tempos em que todos nos encontrávamos tão assiduamente neste espaço... Tudo muda, tudo passa. Só a saudade permanece!
Sabes que gosto sempre de ler-te, não importa o tema das tuas publicações. Sinto na tua escrita uma grande autenticidade, uma força de revelação interior e é isto o que mais gosto ... Porque escreves como um ser único, e não me pareces preocupado em agradar a ninguém, mas simplesmente deixar-te fluir...
Beijinhos


De KI a 17 de Novembro de 2008 às 14:25
Gostava de fazer um blog exclusivamente dedicado a este Natal, conto com a sua presença num post que poderá enviar para trapezista@sapo.pt. Poderá tb convidar alguem q deseje.
Serão publicados a partir de 1 de Dezembro até dia 25 do mesmo mês.
Obrigada e Boas Festas.

KI




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