Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

A escala Musical

Eram dias tremendos em que todas as notas andavam à solta, desvairadas, sem sentidos nem nexos, apenas perdidas pelo mundo esperando pelo FINAL dos tempos, sem que, algum dia da sua vida, tenham feito uma coisa merecedora do milagre que lhes tinham concedido. Eram assim elas, pois nunca ninguém as havia retirado da sua tão bela e confusa LIBERDADE, até ao dia, pois claro.
Então juntaram-se todas as notas, numa solene reunião, marcada à pressa quando, de repente, apareceu morta, estatelada no chão, sem nenhum sinal de vida, um Dó.
A reunião foi estranha, e marcada pela barulheira sem limites que sempre estiveram habituadas a fazer. Afinal, nunca as notas se tinham juntado para fazer alguma coisa de útil, quanto mais para decidirem o seu futuro como seres num mundo em constante evolução.
E então o Dó bemol, uma das mais velhas e sábias notas decidiu levantar a sua voz e começar a discussão que viria a originar a grande revolta das notas musicais, ou, como é mais conhecida, “A Origem da Escala Musical”.
Entre desacordos e berreiros ficou decidido que as notas deveriam ser ordenadas pelo som, sendo esta a sequência mais lógica, mas elas não sabiam. Obviamente nunca tinham prestado atenção a estas sonoras diferenças até então.
Começou-se a fazer a ordem pelo Dó, numa homenagem sentida com choros e gritarias, ao tal Dó que tinha aparecido morto e desamparado e que despontou toda esta confusão.
Depois, logo após o impossível minuto de silencio, veio o Ré, intervir, revoltado como sempre, na reunião, dizendo que se assim fosse, deviam ser os Rés, os segundos na hierarquia, pois não podiam estar em últimos, porque era um lugar muito humilhante para um ré. E então, para cala-lo, deixaram-no estar no segundo lugar. Mas aumentaram logo as vozes da discórdia de todas as outras notas, que era injusto, que não podia ser, que sempre eram passados à frente pelo Ré e pela sua revolta constante, em que nunca estava satisfeito.
Até que, logo a seguir levantou-se o MI, amigo de tudo e todos, pelo amor e pela paz, sem violências, ousou erguer a voz só para mostrar, que apesar de estar desgostoso da atitude do Ré, que uma boa maneira de resolver tudo, e já que as notas eram infinitas, porque não ordena-las como combinado, pelo seu som e que como só haviam sete raças, que podiam sempre repetir a ordem.
Aclamaram-no, quando depois de muito pensarem, perceberam a ideia. E num instante, sem mais interrupções nem motins decidiu-se que as notas formavam uma escala assim: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si. Voltando de novo ao Dó e assim sucessivamente.
E tudo ficou acordado, assinado em acta, num documento estranho a que deram o nome de PAUTA e que até hoje existe, alguns guardando ainda dos maiores mistérios de toda a vida.
 
O que sucedeu, e nunca se tinha imaginado, era que esta simples e barulhenta reunião, revolucionara todo o mundo.
Quando, depois da ordem posta, descobriram que podiam trabalhar juntas, nunca mais ninguém as parou. As notas musicais descobriram em si a melhor e mais poderosa forma de viver, a que chamaram musica. Assim dominariam o mundo! E conseguiram!
 
Enfiaram-se em todo o lado, em todas as maneiras, feitios, costumes. As notas formaram musica e a musica formou fãs, apaixonados, dependentes. A musica começou simples e divertida e evoluiu conforme o mundo. Agarrou-se a ele e quando repararam governava-o.
 
A musica invadiu-nos até ao intimo, ao nosso “ShortBus”, revolveu-nos e controlou-nos. Tudo sem querer, apenas por diversão.
Virou clássica, modesta, rude e agressiva, esfumou-se e alcoolizou-se, tornou-se junkie e electrizou-se. Virou modas, virou pop, rock, punk, soul, rap, e tudo o mais que possa haver.
 
A musica, sem saber, tornou o mundo a seus pés. E ainda hoje, mesmo que não pareça, continua a governar. Afinal, há notas musicais espalhadas em todos e quaisquer sons que existam à nossa volta.
 
E assim acaba a historia, de um louco dependente desta simples maravilha, que respondendo a um desafio, inventou toda esta mirabolante historia, sobre a musica e toda a sua Glória!
Agradecendo assim o desafio que me ofereceste.
música: Jorge Palma - Encosta-te a Mim

publicado por JoãoSousa às 21:22
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1 comentário:
De Emanuela a 14 de Janeiro de 2008 às 22:31
Amigo João, estou mais uma vez maravilhada com tua criatividade...Sem dúvida meu amigo, tu és um artista! Acho até que hei de procurar formas de te desafiar mais vezes para ter o prazer de ler textos assim. Muito obrigada por aceitá-lo. Realmente valeu a pena.
Um beijinho musicado!


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