Domingo, 3 de Abril de 2005

As nossas brincadeiras

Íamos sempre assim os dois,
Tu subias e eu descia, ou então ao contrário, eu subia e tu descias.
Mas sempre em direcções opostas, sempre com o intuito de nos cruzarmos.
Às vezes passavas por mim e mexias no cabelo, para que eu visse como ele era comprido e brilhante. Enquanto isso eu tossia ou cantarolava alguma coisa para te chamar atenção.
Outras vezes tentavas apanhar o meu olhar com o teu e eu sempre o desviava. Por vezes trocávamos de papéis, eu fixava o olhar em ti e tu mudavas o teu em todas as direcções, constrangida pela mudança de papéis.
Era sempre assim a nossa paixão. Trocas de papéis, subidas e descidas, olhares e raras eram as vezes em que tocávamos.
Por vezes um ligeiro encontrão de ombros, daqueles normais, que as pessoas dão nos passeios, quando vão com pressa. Outras vezes tentávamos ser mais indiscretos e quando nos encontrávamos pedias desculpas e baixavas os olhos, eu olhava, eu pedia desculpas e olhava noutro sentido, tu aproveitavas e olhavas para mim. Era sempre um jogo para nós. Uma brincadeira que não queríamos que acabasse. Era assim o nosso amor.
Um dia quando nos cruzamos e nos encontramos, deixaste cair os livros e achei que ai seria a minha jogada final. Pedi-te desculpas, baixei os olhos mas tu nem olhaste. Tentei ouvir as tuas desculpas, tentei com mais força mas não as ouvi. Olhei para os teus olhos e não se tentavam esconder. Apanhaste os livros com rapidez, nem me deixaste ajudar e sem mexeres no cabelo continuaste.
Fiquei parado ali na descida, olhando para ti que subias, e vi-te mexer o cabelo, vi-te olhar para outro lado, vi-te tocar num ombro que não era o meu, vi-te pedir desculpas baixando os olhos e vi-te ouvindo desculpas, olhando para outros olhos.


Foi ai que percebi que a nossa brincadeira tinha acabado. Percebi que já não me adiantava descer e subir aquela rua, pois nunca mais iria encontrar alguém que me olhasse enquanto eu desviava o olhar, ou que viesse suavemente contra mim e me pedisse desculpas, com um sorrisinho muito tímido e com os olhos postos no chão.
Percebi que tinha perdido e que não havia maneira de te chamar atenção novamente.
Então o melhor a fazer, para esquecer o tempo feliz em que estivemos nesta brincadeira, foi mudar de rua, mudar de hábitos, mudar de rotina.
E então eu saía às horas que tu entravas, e o teu dia acabava às horas que começava o meu.
Às vezes quando eu estava a sair, segurava-te na porta para entrares. E outras vezes fazias tu o mesmo.
Depois essas vezes foram-se tornando mais frequentes e todos os dias eu esperava por ti junto à porta e quando te via a sair do carro e a dirigires-te para a porta, eu abria a porta, dizia boa noite, pregava os olhos no chão e sorria, enquanto saia. Comecei a reparar que tu fazias o mesmo. Todos os dias quando tu saias, estava eu a entrar, dizias bom dia e olhavas para outro lado, porque sabias que eu olhava para ti.
E comecei novamente a brincar.

publicado por JoãoSousa às 00:34
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4 comentários:
De Anónimo a 4 de Abril de 2005 às 16:07
Brincadeiras q são o q dá vida à nossa alma e nos faz crescer e ver a vida de um lado mais bonito.beijokas grandes.andrye
(http://andrye.blogs.sapo.pt)
(mailto:andrye@sapo.pt)


De Anónimo a 4 de Abril de 2005 às 15:18
E SÃO ESSAS BRINCADEIRAS QUE NOS FAZEM TER ÂNIMO PARA CONTINUAR VIVOS!inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)


De Anónimo a 4 de Abril de 2005 às 12:33
E assim passa uma vida... a brincar! Depois quando queremos voltar atrás... é tarde!Carlos Tavares
(http://o.-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 3 de Abril de 2005 às 15:30
Essas brincadeiras inocentes que nos aquecem a alma..Quem me dera que tudo voltasse a ser assim..Quem me dera..Um beijo doceMissLadyMystery
(http://MundoDosSonhos.blogs.sapo.pt)
(mailto:lovespellyou@portugalmail.pt)


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