Domingo, 11 de Março de 2007

...

Não sei!

Eu não faço ideia do baque que me dá e me faz parar. Paro, entristeço e tudo de mau vem à cabeça. As minhas cruzes, os meus receios, as minhas duvidas e angustias. Tudo de repente me ataca violentamente o peito, a cabeça e o resto do corpo entorpece numa melancólica tristeza. Num suspiro sinto-me vazio como um fantasma. Transparente e indesejado.

Ninguém me acompanha, ninguém me entende, ninguém me quer. Tudo à volta se mexe e eu continuo no meu canto, atrofiado entre os tremores de angústia e as náuseas de medo.

Chamam por mim e eu acordo, nada se passa, nada mesmo. Mas o corpo já adormecido não desperta mais. Deixa-se estar nessa sonolência e puxa a cabeça consigo e o coração também. E volto ao mesmo estado comatoso.

Nunca terei, nunca serei, nunca. Nunca. Nunca. Passam na minha cabeça imagens que nunca poderão ser reais. Imagens bem nítidas de futuros paralelos, que não são caminhos que possa tomar.

O ar custa a entrar, e os arrepios atravessam-me a espinha como facadas. Sinto-me sufocar em qualquer sítio, sinto-me seco e despedaçado, inútil. Apenas nos meus olhos se sente o tom vidrado de duas lágrimas. Não ouço nada à minha volta, só a voz tremeluzente do meu Eu medricas, bem enfiado lá para o fundo do meu coração e sobe por mim, tomando os caminhos mais obscuros do meu cérebro, onde guardo tudo aquilo que não quero guardar (mas que sou obrigado) e começa a falar-me num tom de assustado que me assusta, de tudo aquilo que sabe de mim e que tem medo que as outras pessoas saibam. Os seus medos, tristezas, angústias, duvidas. O que nunca terei, nunca serei, onde nunca irei. Tudo, tudo, tudo.

E instala-se o terror no meu olhar. As lágrimas secam e o olhar turva-se, começo a tremer e a suar e tudo se transforma num pesadelo de luzes e cores e musicas e vozes destorcidas e ameaçadoras. Tenho de me acalmar e fugir. Tenho de me acalmar e fugir. Surge em mim um ataque de pânico.

Tenho de me acalmar, mas não adianta, tenho de fugir, mas não adianta. Tudo que tenho comigo cá dentro, vai fugir comigo, porque está tudo cá dentro. Mas só o afastar-me de tudo que me rodeia e que conheço acalma-me. Tenho de fugir, de preferência enfiar-me no meio da rua, ou num canto que não conheça, num café cheio de gente que não faça ideia quem eu sou, ou debaixo das escadas de um prédio por construir, numa rua que ainda não existe, num sitio desconhecido da cidade.

São assim os meus ataques de pânico. Aguento ao máximo a vozinha cá dentro a demolir-me os sentimentos e a força, depois fujo, e enfio-me nos braços de alguma sombra que não faço ideia de quem seja ou o que seja e deixo-me estar lá a respirar a olhar, a conhecer. E depois de conhecer volto para trás, calmo, tranquilo, sossegado.

 

Os meus segredos são os meus segredos. Antes conseguia disfarçá-los, escondê-los, pôr-lhes uma máscara e sorrir porque é bonito e ninguém desconfia. Mas a estúpida vozinha medrosa já destruiu todas as máscaras (fora aquelas que foram caindo) e destruiu toda a minha força de vontade de escondê-los. Agora só gostava de arranca-los, corta-los, despedaça-los e nunca me lembrar deles. Fazer de conta que nunca os tive, nunca os fui,
nunca. Nunca. Nunca.


Gabriel Braga
música: Lamb - I Cry

publicado por JoãoSousa às 18:42
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