Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006

...


Michal Maku - Untitled    Carbon Print No.6    2004

A dor que tenho no meu peito não passa de frustração.

Tantos sonhos, tantos planos, tantas vontades e vejo que tudo agora não passa de uma ilusão.

Nascemos com independência total de pensamento, mas as nossas limitações exteriores vão quebrando de dia para dia os sonhos que temos em mente.

E depois só resta o barulho do coração a bater violentamente dentro de nós, como se até ele se quisesse libertar de todas as prisões e fugir.

 

Não são enfartes nem AVC’s, são apenas apelos extremistas de ajuda, de ansiedade, de querer fugir e não poder, de ver tudo à sua volta e saber que nunca poderá ter nada.

 

Tudo avança à tua volta, tudo muda, evolui, desaparece, ou constrói-se, e tu só te destróis, aos poucos e poucos, com ilusões fúteis de independência, de sonhos realizados de vontades feitas. Mas tudo isso não são mais do que simples vislumbres do que realmente querias.

Não vale a pena dizer que são os pequenos momentos os mais importantes, porque infelizmente não são. Esses momentos de pura felicidade e satisfação pessoal são tão efémeros que até é ridículo pensar neles depois, porque depois esses momentos só nos trazem ainda mais tristeza, ainda mais saudade. E são tão pequenos. Tão insignificantes. Tão nulos. Para quê tê-los? Para quê aproveita-los? É tão triste saber que tudo o que vivemos não passam de momentos estupidamente efémeros que após passarem só deixam cicatrizes de saudade em nós.

 

É revoltante quando nos apercebemos da nossa pequenez. Da nossa quietude num mundo tão barulhento, tão colorido, tão cheio como o nosso. É frustrante a sensação de vazio que tenho, sabendo tudo o que existe à minha volta.

 

É arrepiante a prisão do corpo, face à vontade da alma aqui enfiada. É terrível a frieza do corpo que não segue a vontade dos nosso pensamentos, das nossas ambições.

E é pior ainda quando temos noção do que realmente somos cá dentro, do que somos construídos, para que é que servimos e o que deveríamos fazer.

 

Para que servimos se não podemos fazer o que a nossa mente nos pede? De que servimos se não nos podemos libertar e fazer aquilo a que fomos destinados?

Servimos só para encosto daqueles que conseguem atingir uma relação perfeita entre corpo e alma e conseguem chegar aos seus objectivos?

Servimos só para segurar os troféus dos outros, para termos lembranças dos sítios onde nunca iremos? É para isso?

 

Então porque é que ainda continuamos a debater contra a vontade de morrer? De deixarmos o nosso corpo para trás e seguir em frente, só de alma e coração, percorrer todas as nossas vontades, todos os nossos desejos (mesmo os mais íntimos) sem nos preocuparmos com ninguém, com nada, só com a nossa condição de atingir a felicidade, a verdadeira felicidade, a felicidade total e avassaladora, simples, brilhante, doce, suave, pura.


Gabriel Braga
música: Snow Patrol - Chasing cars

publicado por JoãoSousa às 01:50
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3 comentários:
De Inês a 9 de Novembro de 2006 às 19:42
Olha a depressão :P a imagem é mt bonita.


De Ceridwyn a 11 de Novembro de 2006 às 15:26
O que dizes faz muito sentido, só falta mesmo um pormenor.
Sabes o que eu queria, porque era bem visível e não vale a pena negá-lo (não quero negá-lo). O que talvez não saibas e que passo a explicar é que nunca foi minha intenção magoar ninguém (ou talvez saibas e isso te magoe ainda mais). O que eu queria mesmo ter dito era "Gosto muito de vocês. Sei que tenho muitos defeitos, muitos mesmo, conheço-os quase de cor. Gostava que me aceitassem assim como sou e que me deixassem aprender convosco." Como infelizmente sabes, não foi nada disto que disse. Acabei com uma hipérbole egocentrista , horrível e cruel.
É preciso estar muito confuso para se passar de um extremo ao outro desta maneira, não é? Portanto, no meio de sentimentos muito contraditórios acabei por me afastar, de uma forma pouco pacífica, com medo de me magoar ainda mais, e sim, muito ingrata e, outra vez, egocentrista . Mas era mais do que um pedido de ajuda desesperado, porque sei (agora vejo isso) que me tentaram ajudar o melhor que sabiam, e ajudaram mesmo.
O pormenor que te falta neste texto e que serve de resposta à tua pergunta no último parágrafo: algumas pessoas sabem, porque tiveram essa experiência, que há coisas ainda piores do que estar sozinho e sem amigos. Que comparado com isso, a solidão é até bastante suportável. E essas pessoas preocupam-se sim, mas escondem muito bem isso. E os pequenos momentos, apesar de (talvez) insignificantes, servem muito bem o importante propósito de manter um certo nível de sanidade mental.
Lamento ter-vos feito sofrer assim, todo este tempo. Fui muito injusto e ingrato. Merecem e muito, um pedido de desculpas público, que apesar de pecar por tardio, é sincero.


De Melissa Yedda a 18 de Setembro de 2007 às 23:56
Apesar da dor explícita no texto, gosto muito de ler-te assim. Identifico-me nos questionamentos. E tenho percebido claramente que o que mais aproxima as pessoas é mesmo o parecer-se e não o ser oposto.Apesar de que tantas e tantas vezes, nos encantamos pelo diferente...
Um abraço!


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