Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

O Diário III

Querido Diário,

Acordei outra vez com aquele ardor doloroso por dentro do meu corpo e aquela dor cansada nas minhas pernas.
Senti-me enjoada toda a manhã. Não comi ao pequeno almoço. E a burra da minha mamã perguntou-me se estava doente. “Estou sim, mãe! Mas tu ainda não percebeste porquê!” pensei. O meu pai nem me olhou. O meu maninho continuava entretido com a comida.
Quem me dera ter a inocência do meu irmão pequeno e a estupidez da minha mãe grande e a indiferênça do meu pai.
Fui para a escola e não consegui fazer o que a professora pedia porque a minha cabeça doia-me muito.
No recreio sentei-me no muro sem forças para brincar com as minhas amigas. Elas já nem me chamam para brincar com elas.
E o meu professor de ginástica sentou-se no muro à minha beira.
Eu não gosto de homens grandes. Os amigos dos meus pais fujo sempre deles. São demasiado queridos e simpáticos quando me veem, mas depressa passam a ignorar-me como me faz o meu pai. E tenho medo disso.
Mas o meu professor não me ignora. Ele é um homem grande mas não me ignora. Parece perceber o que é ser criança. Sentou-se e falou comigo.
“Estas muito doente Ana.”. Fiquei assustada. Sabia que estava doente, na alma, no coração. Mas pensei que ninguém via. Ele continuou:
“O medo é a pior doença de que se pode sofrer...”. Não percebi bem o que queria dizer, mas assustei-me por ser percebida.
“Quando era pequeno também me sentei muitas vezes neste muro porque não tinha forças para brincar com os meus amigos, até que eles deixaram de me chamar para brincar com eles. Nunca pude jogar futebol porque me doiam as pernas e o corpo onde eu vivia não era o meu. Nunca pude fazer ginástica porque tinha marcas no meu corpo todo e nunca pude ser uma criança normal. E foi por isso que agora sou professor de ginástica. Para me vingar de alguma forma daquilo que não fiz em pequeno.”
Ele sabia o meu segredo. Eu fiz força para não chorar. Queria que ele parasse com aquilo, mas também não queria. De certa forma era bom saber que havia alguém que me compreendia. Que sabia o que eu sabia. E que sabia a minha doença.
“O meu pai abusava de mim. Em todos os sentidos. Não só as marcas no corpo, ou a cicatriz que tenho nas costas por ele me ter batido. As marcas cá dentro são as que doem mais.
Mas no meu tempo, ninguém sabia, ou fingiam não saber. Era uma coisa condenável, mas que ninguém criticava. A minha mãe não conseguia olhar para mim porque chorava. Os meus irmãos deixavam-me de lado porque eu era doente. Eu tinha a mesma doença que tu tens agora. Tinha medo.”
Eu levantei-me. Não conseguia ouvir mais. A cada palavra que ele dizia eu via-me a mim, via-me fora do meu corpo enquanto o meu pai me usava, me abusava e não conseguia ter aquelas imagens na minha cabeça.
Ele levantou-se. E tocou-me no ombro. A mão dele era quente e não fria como a mão do meu pai que me tocava todos os dias e fazia com que eu ficasse fria, gelada, morta.
“Só tens de ter força, de ter vontade para conseguires combater o teu medo, a tua doença. Sei que és pequena. Que és muito pequena. Uma criança não deve passar por isto, não deve sofrer. É horrivel... Se precisares de ajuda, se quiseres vem falar comigo, apesar de apenas te puder ajudar com palavras e esperança, porque acções tem de vir de ti. Ninguém pode agir por ti infelizmente. Apesar de seres uma criança, ninguém pode fazer nada por ti, só tu.”
E foi-se embora.
E eu fui-me embora.
Cheguei da escola com o meu maninho e comemos. Tive vontade de comer, porque para curar a minha doença tinha de estar bem alimentada.
Fiz os trabalhos de casa, deitei o meu irmão para dormir a sesta, fiz uns desenhos e o meu pai chegou.
Deixei-me a ver desenhos animados na televisão e o meu pai não me falou. Sentou-se no outro sofá e mudou de canal, como se eu não estivesse lá.
Fiquei no sofá a lutar com o medo que me mandava fugir. Mas não cedi.
O meu pai olhou-me uma vez. Não fugi mas estremeci.
O meu pai olhou-me outra vez. Não fugi, não estremeci.
Ele levantou-se e foi para cima. Não fugi, suspirei de alivio.
Mas ouvi-o de lá de cima a chamar-me. “Ana! Ana. Anda cá cima ajudar o pai.”
Chamou outra vez. Mais alto. Com voz diferente.
Comecei a subir as escadas e imaginei o meu professor, um homem pequeno, sentado no muro da escola.
E sorri. Não fugi, não estremeci, sorri.
Estava a curar-me. Já não tinha medo.
Cheguei ao cimo das escadas, a porta do quarto dos pais estava entreaberta. Suspirei mas não fugi. Já não tinha medo. O corpo não me interessa mais. Nem a dor que sinto, nem as marcas, nada. Apenas a alma me interessa. E essa está a ficar curada e pronta para lutar.
Fechei a porta e vi o meu professor, um homem pequeno, a fechar a sua porta, e agradeci-lhe.
Agradeci-lhe porque me deu a cura. E o meu pai puxou-me.
Agradeci-lhe porque me falou de si. E o meu pai tirou-me a roupa.
Agradeci-lhe porque sabia o que fazer. E o meu pai deitou-me na cama.
E eu agradeci.


Gabriel Braga

publicado por JoãoSousa às 21:28
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3 comentários:
De Anónimo a 3 de Maio de 2005 às 19:12
...:)...um bj*Virgínia Pedras
(http://semipoetisa.blogs.sapo.pt)
(mailto:gina_pedras@yahoo.com)


De Anónimo a 30 de Abril de 2005 às 11:04
Pra mim a cura n era deixa-lo abusar de mim outra vez e sim mandar-lhe c uma marreta nos cornos e ir a policia fazer queixa e mostrar-lhe as marcas do meu corpo!beijokas e bom fim de semana.andrye
(http://andrye.blogs.sapo.pt)
(mailto:andrye@sapo.pt)


De Anónimo a 30 de Abril de 2005 às 00:54
Está forte, muito forte... mas isto vai acabar mal!Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.rfoquegest@mail.telepac.pt)


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