Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006

Olá, Sou de Braga!


Olá, sou de Braga! Aquela cidade do norte, a capital do Minho, a cidade dos arcebispos, da juventude e das noitadas.

Sou também da cidade capital do distrito que mais ardeu este ano, da cidade onde túneis e pontes aparecem de dia para dia, onde prédios nascem como cogumelos e da cidade onde se destroem as histórias antigas para se construir mais e mais, tudo em nome do crescimento, da evolução.

Sou da cidade em que um hospital é prometido há anos, mas apenas surgem mais prédios e casas. Sou da cidade rodeada pelos montes do Bom Jesus e Sameiro que ardem no verão, mas que não são reflorestados e sim desbastados.

Sou da cidade cinzenta cor de cimento, preta cor de alcatrão. Já não sou da cidade verde das árvores, nem azul do céu.

Eu era duma cidade que tinha casarios antigos, com grandes pomares, grandes terrenos cultivados. Era duma cidade que tinha história encerrada nas paredes de pedra das casas de senhores ricos, nos telhados de telha vermelha das casinhas minúsculas dos homens pobres.

Agora não. Agora que venham as gruas, que é moderno, que venham as máquinas, que é moderno, que venha o cimento e o betão, que antes não existiam e que é moderno também. Que venha a má obra, os maus acabamentos, os prédios construídos a torto e a direito. É moderno sim senhor!

Agora sou da cidade triste, da cidade que tem jardins de cimento e árvores de ferro. Da cidade feita de sombras, prédio após prédio após prédio.

 

Senhores ricos de agora, destruam tudo!

Destruam a vivenda de Santa Cruz, já que a casa das freirinhas um pouco mais adiante, também já se tornou num prédio. Ninguém se importa!

Já agora destruam também as casinhas do centro, a Arcada e a Brasileira. Vão ver que ninguém se importa!

Destruam a Sé e as suas ruelas. Destruam a Torre de Menagem e o Arco da Porta Nova.

Para quê historia? Para quê marcos antigos que dão nome à cidade? Para quê?

O que precisamos é de prédios que nos façam sombra e nos tapem o céu.

O que precisamos é de estradas, porque estas já não prestam, já não chegam.

O que precisamos é pontes e túneis porque as estradas, que já são muitas, não bastam.

O que precisamos é de jardins como o Campo da Vinha ou como Lamaçães.

 

Numa cidade em que grande parte das casas não está habitada, constroem-se mais. Numa cidade em que já não se vê história, destrói-se ainda mais. Numa cidade evoluída, não se fala em restauração, em preservação, pois é caro. Fala-se em mão-de-obra barata para fazerem prédios baratos, de acabamentos baratos, sem pés nem cabeça, desde que sejam baratos.

 

 

(Em apenas vinte anos de existência, todos vividos nesta cidade, poderei virar-me agora para as gerações que me sucedem e dizer “Eu ainda sou do tempo em que Braga era uma cidade bonita!”)

 

Obrigado,

 

João Sousa

música: Madrugada - Majesty

publicado por JoãoSousa às 16:58
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1 comentário:
De Jaci a 17 de Setembro de 2006 às 21:33
a nossa casa... ;(


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