Segunda-feira, 26 de Junho de 2006

Conversa de Cama

A meu ver todos os gatos são pardos, seja noite ou seja dia! – Dizia ela baixinho ao meu ouvido, como se de um segredo impensável se tratasse.

E eu ria-me sem ter noção da seriedade do assunto e fazia pior, discordava. Fazia cara séria e comunicava – Não concordo! Nem sempre todos os gatos são pardos, às vezes são brancos, outras vezes pretos, e às vezes até malhados.

E ela tirava a mão dos meus boxers, virava-se para o outro lado e amuava.

Esperava algum tempo, virava-me para ela, subia-lhe o top e tocava-lhe na mama, do lado do coração e dizia-lhe baixinho, ao ouvido – Tudo bem! Todos os gatos são pardos, uns mais pardos, outros menos pardos. Assim está melhor?

 

Era assim que nos tratávamos quando estávamos na cama, depois de uns charros, depois de uma queca, ou simplesmente porque estávamos ali, sem sono, sem nada para fazer.

 

Ainda no outro dia tínhamos tido uma conversa sobre os espantalhos.

Ela dizia – Os espantalhos não assustam os pardais!

E eu como sempre discordavam – Assustam sim, senão não existiam.

Ela amuou, eu acariciei-a e disse-lhe “Está bem! Os espantalhos não assustam os pardais, só assustam quando está vento, porque o vento fá-los mexer e os pardais pensam que são pessoas.”

E depois fizemos amor, não sexo, amor, porque é sempre da mesma maneira. Ela por baixo, a olhar para a janela e a pensar que tinha de mudar as cortinas porque estava farta delas, e tinha de disfarçar a racha debaixo da janela, e eu por cima, a olhar para o lado oposto e a pensar “branco. Estou farto deste quarto pintado de azul-bebé. Branco!”.

Depois vim-me, saí de cima dela e fui comer.

 

Era assim a nossa vida. E nem casados estávamos. Só morávamos juntos há 2 meses e o nosso namoro de quatro anos já só se resumia a isto.

 

E quando voltei para a cama, ela estava a fumar um charro e virou-se para mim muito séria – Mas e se começa tudo a arder? Os espantalhos não fazem frente ao fogo, ou será que o assustam se tiver vento?

 

Passei-me. “Foda-se! Tu és Louca! És parva. Não tens juízo. Sai da minha cama senão saio eu.” E sem a deixar responder, pegava na almofada, tirava um lençol e ia para o sofá.

Gabriel Braga

música: Wordsong - Opiário

publicado por JoãoSousa às 16:30
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2 comentários:
De Carlos Tavares a 26 de Junho de 2006 às 21:00
Não será antes "à noite todos os gatos são parvos"... :-)


De Carlos Tavares a 30 de Junho de 2006 às 17:12
à Noite todos os gatos são parvos... :-)


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