Domingo, 7 de Junho de 2009
Soneto débil
Tenho, como objectivo final da causa defendida,
A tentativa (quase certeira de falhanço)
De conseguir agarrar a felicidade por instantes,
E deixar-lhe a marca da minha existência.
Faltam-me porém, os motivos que normalmente
Exaltam febrilmente a alma do homem, e o
Impulsionam para a frente. Chamam-lhe força
Ou vontade, mas não a conheço nem a vejo.
Então, embalo-me nas cantigas do tédio e do
Desassossego e deixo-me andar moribundo,
Pelas entranhas inúteis da sobrevivência.
Calha-me a sorte de saber os horizontes,
Solta-se o infortúnio de não possuir o meu corpo
E mata-me o conhecer o fracasso da minha missão.
música: Yeah Yeah Yeahs - Zero
Sábado, 18 de Abril de 2009
One Night Stand

Saia daquele beco apertado e fumarento, ainda com sabor da cerveja a escorrer-me pela garganta, e caminhava para o carro com vontade de ir para casa e não voltar mais.
Mas entretanto os teus olhos fixaram os meus e nesse instante em que caminhavas em direcção a mim, toda a minha memória se esforçou para relembrar os olhares que me atiravas ainda lá dentro, no meio da confusão, aquando te tocava sem querer ao descer as escadas onde estavas a fumar um cigarro.
Incrível como o poder das memórias trémulas e confusas fizeram também os meus olhos fixarem em ti e seguirem os teus passos, o movimento do teu corpo, o penetrante dos teus olhos em mim, seguindo também os meus passos, o movimento do meu corpo, os meus olhos colados em ti.
E cruzamo-nos sem proferir palavras, nem sentimentos, nem qualquer emoção a não ser um sorriso que me escapou violento. E depois seguimos, cada um em direcção oposta ao outro, mas ainda com os pensamentos toldados em nós os dois.
De repente, sem querer olhei para trás. Algo me puxou, ou me obrigou a olhar-te de trás, a ver se olhavas também, na esperança talvez de podermos não seguir caminhos opostos, mas seguir simplesmente o mesmo.
E lá, naquele instante em que me virei para trás, voltei a ver o teu olhar, o teu rodar de cabeça, o teu instinto semelhante ao meu, de não me perder de vista. Contentei a minha alma, acalmei o coração, preparei o corpo e mais um sorriso me fugiu enquanto voltava a cabeça para a frente e voltava ao meu caminho.
Podias ter-me seguido. Queria que me tivesses seguido, ou então meramente um sussurro ou um piscar de olhos, ou até mesmo um sorriso em resposta aos meus fugitivos.
Mas não. Seguimos os dois, opostos.
Fica agora na memoria, a ideia desordenada da tua cara e dos teus olhos, a vontade de voltar a ver-te e o desejo de coragem para largar os olhares e avançar-me simplesmente em ti.
música: Suckers - It Makes Your Body Movin'
Domingo, 8 de Março de 2009
Ressurreição
E acordemos então.
Enchamos o peito de ar, e respiremos fundo.
Avizinha-se um novo dia, uma nova aurora, um novo tempo.
É hora. É agora. Já! Inspira e acorda. Abre os olhos, levanta-te. Acorda.
Já se passa há muito a hora da tua morte. É hora de voltares à vida!
E apressa-te, que o dia já espreita e a noite não tarda.
O tempo urge e escasseia.
música: The kills - No Wow
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
A escrita
Paro!
Porque parar fez-me ver o que de mim se escapava por entre linhas mal escritas e borrões de canetas que não sabiam o que estavam a fazer.
Mas apercebi-me, no levantar de um novo ano que o que me libertou enfim, da profunda tristeza que tenho em mim, foi nada mais que a simples perda de vontade de escrever.
Sim! A escrita, tão pobre e inocente escrita é que me arruinou as ideias e me toldou o pensamento e então a realidade misturou-se com a ficção e tudo se baralhou e entretanto, para me exprimir e respirar só restava a escrita. Coitada e débil escrita.
Um escape. Apenas um escape foi a minha escrita. O único escape. O real escape. A escrita. Forte, dura, revoltada escrita que me levava em ambições maiores que a própria depressão. Não chegavam as lágrimas ao fim do dia, tinha de haver escrita. Tinha de me exprimir, de me mostrar, de chamar a atenção, e nada melhor que a escrita.
Por isso paro!
Porque parar me deixa sorrir, me deixa distraído e com tempo. Sem lágrimas, nem escapes, nem revoltas, durezas e coitadas letras confusas em papeis que nada sentem.
Paro, porque não são as folhas aquelas que me ajudam, são sim aquelas que prendem ainda mais a solidão, a tristeza, a inquietude que tenho agarradas a mim.
Paro!
De escrever, paro.
música: Beirut - St. Apollonia
Sábado, 13 de Dezembro de 2008
O Divórcio
Maria chegou primeiro e sentou-se. Pediu um café, que tinha sono, e um qualquer chocolate, que precisava de açúcar.
Fernando chegou logo depois, ainda o empregado não tinha atendido o pedido de Maria, e aproveitou para pedir rapidamente um café, que também tinha sono, e um copo de água, que já era seu costume.
Olharam-se os dois e sorriram-se. Maria comentou que era cedo e estava ainda de ressaca. E riu-se. Fernando riu-se também, também se sentia pouco acordado, e perguntou-lhe o que tinha feito na noite anterior.
E começou assim a conversa. As noitadas, as bebidas, as drogas e os amigos, os comentários e as críticas e os fumos e os sexos e tudo que tinham feito até aí.
Vieram os cafés e respectivos acompanhantes, e vieram também duas torradas, que já era mais que hora do pequeno almoço, e depois mais dois sumos naturais, que a torrada era seca e dava sede, e passaram-se horas e os dois ainda se riam, nas discussões que sempre tinham e que nunca davam o braço a torcer, na cumplicidade de todos os anos que já pesavam em cima da sua relação, dos amores, desamores, traições, alegrias e desilusões.
Riram-se até do filho que Maria não queria, dos miúdos que Fernando queria, e do facto de nem isso terem conseguido.
E riram-se novamente dos ataques sexuais de Fernando, ou da descompressão orgásmica que Maria adorava ter. E do quanto Maria gostava de estar agarrada ao sexo de Fernando. E do quanto Fernando adorava possuir Maria por trás. E tocaram-se ao de leve, imaginando-se em actos antigos, suados e quentes.
E sussurraram relembrando experiências escaldantes com terceiros incógnitos, quando Fernando se deixou levar por outro homem oferecendo a Maria um espectáculo voyeur que ela tanto ansiava, ou quando Maria partiu à descoberta de clítoris desconhecidos em mulheres que caíam nos braços de Fernando.
E riram-se. E estavam contentes. E felizes. E gostavam muito um do outro.
E trocaram os papéis, e cada um assinou o seu, e fingiram que leram enquanto recordavam ainda coisas mínimas como os casacos que ele teimava em pousar no móvel da entrada e a arrumação minuciosa que Maria obcecava ter nas suas gavetas de roupa interior.
Maria guardou o seu papel na bolsa e suspirou. Fernando dobrou o papel e guardou-o no bolso. Olharam-se. Estava feito. E calaram-se durante um tempo.
Nenhum dos dois hesitou, nem temeu, nem sentiu o aperto de quem faz um erro.
Ele tirou a aliança e deu-lha. Ela tirou a aliança e deu-lhe.
E riram-se muito!
Fernando pagou o consumido. Era a sua última vez a pagar. Maria vestiu o casaco e pegou na bolsa.
Saíram do café. Deram a mão e olharam-se o mais fundo que alguém pode ou consegue olhar. Beijaram-se num adeus tão grande e imenso e definitivo e viraram costas sem olhar para trás.
música: Neutral Milk Hotel - Ghost
Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008
...
Gostava de contar-te tudo aquilo que aconteceu dentro de mim, desde o mais primordial segundo em que senti a tua mão fria deixar de tocar-me, mas a epopeia violenta de todos os acasos embateu-se tão forte em mim, que não pude deixar de ser levado.
Perdoa-me, mas fui levado.
(E enquanto isso dá um ultimo suspiro, fecha os olhos ainda com a imagem dela, chorando, largando-lhe a mão já fria, e tenta esboçar um sorriso como quem diz que tudo está bem. Mas não estava. E depois morreu).
Perdoa-me! Não te agarrei.
Mas o pesar que caiu sobre os meus olhos, turvaram-me a mente e fizeram-me chorar. Tinha sido forte até então, mas ver o fechar dos teus e o teu embrenhar pelas escuras aventuras do destino, fez-me sentir-te já morto, e não aguentei o esfriar da tua mão.
(E enquanto isso suspira e chora, com um coração semeado de saudade, tenta agarrar a sua mão novamente, mas já de nada vale. Ele morreu. Ela ficou sozinha).
música: Nôze - Dance Avec Moi
Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
...
Miguel apaixonou-se tão rapidamente por José que nem chegou a sentir estranho, um tal sentimento que nunca sentira antes daí.
Era anormal e escondia-se. Ridículo e infantil. Sujeitava-se a convida-lo para serões de conversas estúpidas, viagens sem rotas fixas, ou até um ou outro café desinteressante e impessoal. Mas era assim que o amava.
Era assim a única maneira que conhecia de idolatrar aquele alguém que se sentia seu amigo. Nada mais.
E aproveitava todos os momentos banais, em que, no grupo, se encontravam os dois mais próximos, tocando-lhe na mão enquanto conversavam, ou sentindo-lhe o odor, quando passava por ele, numa qualquer brincadeira, mas sem nunca se declarar num toque mais quente e forte ou mesmo num respirar mais profundo e demorado. Mantinha a sua distância, assim como José continuava com a sua, de amigo.
Nem nunca mais Miguel se interessou pelas mãos das mulheres que o seguiam, ou desejavam, nem pelas paixões absurdas que dia sim, dia não, sentia embater violentamente no seu coração, quando passava por alguém que reluzia naquele dia. Desistiu dos seus encontros esporádicos apenas com intuitos sexuais, ou dos seus cafés de conversa fiada, violentas críticas e ataques constantes de riso.
Deixou-se esventrar completamente por aquela obsessão, que perdeu o sorriso e a inteligência, a perícia e a sua capacidade de integração.
Ficava no grupo apenas por José, visto que mais ninguém lhe chamava a mínima atenção para, nem que fosse, conversar. Mantinha-se apático e quieto, dentro de si, vislumbrando sempre, de olhos vidrados de amor, o seu ideal, que continuava igual a si mesmo, sem sequer se aperceber que se tornava todo o mundo de Miguel.
E a sua vida destruiu-se bem à sua frente, sem que ele reparasse. Foi levado pelo furacão dos sentimentos proibidos e silenciosos que quando deu por si estava moribundo e apenas com a imagem de José ainda colada à sua memória visual, tão forte, que se apercebeu cego, só e deprimido.
Finalmente, e num dia que se esperava escuro e triste como todos os outros, acordou reparando que Perdera toda a capacidade de raciocínio e foi aí, quando a loucura lhe invadiu os actos, que se aproximou do mais alto e soante espaço e proclamou loucamente todo o seu amor por José. Gritou tudo, até que a voz lhe faltou, até que o peito começou a arder e as pernas a falharem. E chorou.
E enquanto as lágrimas lhe lavavam a vista, a imagem de José esbatia-se lentamente em formas desconhecidas, em cores imperceptíveis, em tons deslavados, até que desapareceu completamente, num súbito abrir de olhos, e redescobrir a vida como outrora conhecera.
Miguel lavou-se e vestiu-se. Saiu ao mundo e procurou todos aqueles que tinha deixado. Contou-lhes a sua história, e aguentou os comentários falsos, sarcásticos, alegres ou até os de completo desinteresse. Não pediu nem perdão, nem que o aceitassem de volta, nem que tivessem um pingo de pena por ele. Nada. Apenas se sentiu obrigado a explicar a sua auto-exclusão. O resto não lhe interessava a mínima, não o incomodava nem simplesmente o atingia.
E depois de tudo corrido, de todas as desculpas pedidas, de todos os constrangimentos passados, dirigiu-se a casa de José. Bateu à porta, suspirou e esperou. E a porta abriu-se, e os olhos vidraram-se em falta de coragem, e a voz atrapalhou-se em vergonha, e os olhos desviaram-se em desonra, e José pegou-lhe a mão, e sorriu tocando-lhe a cara e puxou-o suavemente para dentro da sua casa, do seu quarto, do seu coração.
música: The Ting Tings - Be The One
Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008
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Maria tinha conseguido!
Chegara o dia do seu casamento, e sentia no seu acordar, a mudança brusca de uma menina pura e inocente, para uma mulher capaz e decidida. Nunca se apercebera até então, que o tempo tinha tomado conta de si.
Nem se deu ao trabalho de se aperceber das mulheres que andavam loucas à sua volta, e se debatiam em fúria excitada pelos vestidos, pelos cabelos e pelos pós que espalhavam cruelmente sobre elas. Era o seu dia.
E sem tirar a cabeça das suas nuvens, olhou-se ao espelho e estava pronta. Noiva! Mascarada, sorriu.
A mãe chorou, a tia chorou, as irmãs, as primas e as melhores amigas choraram. Ela riu e disse que parecia inchada.
Chegada a boda, ainda sem tirar o sorriso do rosto, passeou durante todo o corredor, sem ligar, nem sequer à marcha nupcial. E o seu par que apertava as mãos, esperava-a suando, a arfar, num completo ataque de nervos, que apenas o toque suave das suas mãos acalmou. Ela dando-lhe a sua força de mulher, ele aguentando com a coragem de um homem. E mantiveram-se assim até ao Sim final.
Estava no quarto novamente trancada. Tirava o vestido e o sorriso parecia aparvalhado agora, colado à cara, sem expressão, nem sequer vontade de sorrir. Olhou-se ao espelho, nua, mulher, com a mão fina, macia, suave, cravejada com tal argola de ouro que desconhecia. E caiu em si, e caiu da cadeira, e durante um segundo morreu.
Como podia estar ela casada? Ser ela mulher? Se nem sequer tinha ainda desabrochado!
E ainda tentava reanimar a respiração, quando uma mão a puxou e a deitou na cama, lhe perguntou se estava bem e a tocou gentilmente na cara. E esperou que abrisse os olhos, para sorrir de alívio, para se acalmar, para perguntar o que se passara.
Maria acordava ainda em pânico, nua, viva novamente. E os seus olhos habituavam-se ao homem à sua frente, e a sua boca chamou-o, sem o reconhecer, e o seu corpo provocou-o e as suas mãos agarraram-no, e as suas pernas abriram. E…
Maria tornara-se mulher numa simples e rápida traição, em cinco minutos de um compromisso eterno. Maria suspirara de alívio, ao toque do último estremecer do orgasmo, olhando o pouco sangue que perdera, restos da sua meninice, que acabara de abandonar, riu-se.
Beijou o homem que a tornou mulher e esqueceu-o nesse instante. Lavou-se, vestiu-se e desceu as escadas. Juntou-se à festa e ao seu marido, olhou-se num flash duma qualquer câmara e viu-se de anel de ouro, no dedo de quem se comprometeu. E era mulher, e era casada.
música: The killers - Human
Domingo, 16 de Novembro de 2008
...

Ah! Nem ele tinha ainda idade para perceber a situação em que se metera. Mas era tarde demais. O seu corpo já estava aprisionado por entre as pernas de uma qualquer anaconda, que sem receios nem permissão, o estrangulava violentamente, enquanto sibilava suavemente ao seu ouvido, mentiras e ilusões, como se o tentasse distrair da dor dilacerante que sentia nesse momento. Como uma sereia que canta cada vez melhor, quão mais afogado já está o marinheiro.
Mas a culpa era somente dele. O animal à sua frente, uma besta pura e nua, tinha sido sua companhia em toda a sua curta vida, e estaria domesticado, não fosse a força bruta e animalesca do sexo, arrancar-lhe os ensinamentos básicos da memória, e torna-lo apenas num bicho sadio que necessita apenas de procriar. Culpa sua que o excitara!
E era vê-lo depois, ainda franzino, mas cheio de um tesão que nunca sentira outrora, baixar as calças e deixar-se ser levado por aquele corpo quente e suado de víbora que escorria por cima de si. Não sentia mais medo nem dúvidas. Apercebera-se também, assim tão repentinamente, que não era tão diferente assim do animal que o olhava, e o segurava com força para que não fugisse de si.
Não sentia nada a não ser a vontade dilacerante de o sentir dentro de si, suavemente, depois com força, e deixa-lo escorrer o seu veneno por todo o corpo, entrando-lhe no sangue, tornando-o mais vivo. E abria as pernas num trejeito de quem pede.
Doeu! Doeu imenso. Certamente que as lágrimas que ele teimou em guardar no canto dos seus olhos, foram as lágrimas que mais mereciam escorrer pela sua cara. Mas as únicas gotas que se escoavam de si, eram do suor de alguém que se sentia ferido, aberto, exposto.
Mas passou-lhe rapidamente tudo o que sentia, quando deu por si a ser rodado, a ser atirado brusca mas apaixonadamente, de costas para o chão e de se sentir ser sugado.
Ah! Como se veio o sorriso na cara dele, ao sentir, pela primeira vez, o doce sabor de ser aspirado. Com ele não foram só a excitação e as luxuriantes vontades, mas foram também tantas outras dores, incertezas. De repente, sem repentes, com o crescer involuntário de si, para dentro do outro, com o desaparecer dos seus exuberantes desejos por entre líquidos viscosos e quentes, adivinhou-se quem era, aceitou-se como tal e fugiu para casa como um puto normal fugia, pensando que alguém podia descobri-lo, como ele se descobrira ainda há pouco.
Foi rápido, confuso, sujo e agora que ainda tinha o sabor metálico e agridoce daquelas novas iguarias que provara, estava desnorteado e o pior, nem se podia sentar para recuperar o fôlego.
música: Sigur Rós - Olsen Olsen
Domingo, 9 de Novembro de 2008
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Outubro incendiou-se com tal voracidade que agora preciso reconstruir todas as cinzas de um Novembro desconhecido!
música: The Ting Tings - Shut Up And Let Me Go